A violência da ignorância e a educação

por Tiago Miguel Knob

No mundo que prefere a segurança à justiça há cada vez mais gente a aplaudir o sacrifício da justiça nos altares da segurança. Eduardo Galeano.

A menina tinha o rosto meio que desfigurado. As ruas eram escuras. Ali, as luzes não clareiam como acontece no centro da cidade. Nem todas funcionam. Apenas mais de perto pude notar sua fisionomia triste e suas roupas em trapos. Imaginei que não tinha mais do que treze ou quatorze anos. Parou em minha frente e ofereceu, com fala difícil, seu corpo em troca de dez reais. Dez reais, na época, era o preço de uma ou duas pedras de crack.

Prostituição infantil é crime que nem Deus perdoa, escreve Paulina Chiziane em O Sétimo Juramento. Mas na Cidade do Anjo[1] é um negócio lucrativo[2], crescente e permitido por toda a comunidade. Do contrário, penso eu, não haveria. Tanto ali, como no romance de Paulina, “os que pregoam a moral nada fazem para modificar as coisas”, e a hipocrisia continua sendo mais um trunfo das coisas como estão. As missas, aos domingos, permanecem cheias e frequentadas também por políticos denunciados pelo Ministério Público por enriquecimento ilícito e outras facetas da corrupção: ele é uma pessoa boa, dizem iludidos pelo homem que reza e agradece a Deus. E diante da violência expressa em vandalismos, assaltos ao comércio e aos lares do centro da cidade que surpreende os mais desatentos, os cidadãos de bem se juntam para relinchar em tribuna da casa de leis frases prontas da mídia ou das redes sociais, em um discurso marcado por essa capacidade intrínseca à consciência moderna em opinar, dizer, afirmar, com a veemência da certeza, sobre aquilo que nada ou muito pouco se sabe. E isso, em especial, quando o assunto é o próprio entorno por onde vivem, movidos e movidas que estão pelos olhares fixos e enfeitiçados pelas belezas, linhas, contornos, profundidades e saliências do próprio umbigo.

A “política da diferença” ou do “Bom Samaritano”, que se alimenta do sentimento de culpa, ou de ressentimento, ou de piedade, mas nunca da justiça ou da responsabilidade – como escreve o pensador camaronês Achille Mbembe -, aliada à indignação sem conteúdo e direcionada tal qual um cavalo a puxar uma charrete, guia as atitudes, atos e discursos de uma parcela no mínimo ingênua ou estúpida, para não citar outros adjetivos, da nossa comunidade. Parcela essa que, respeitada por motivos também não tão racionais, consegue influenciar decisões políticas dos não menos estúpidos (ingenuidade aqui não existe) ocupantes dos cargos públicos.

A violência da ignorância ganha assim os seus contornos. E enquanto por ali os pronunciamentos da oposição, dos autoproclamados cidadãos de bem, da situação, ampliam os números de câmeras de vigilância nas ruas, de ódio, de repressão, em um ciclo crescente e sem fim existente há tempos – na ilusão de que estão agindo em favor da segurança pública -, em um lugar distante, em um bairro rural e afastado dos nossos cidadãos modelo, um garoto, quase uma criança, mata, no meio de uma das ruas de sua pequena comunidade, um dos tantos cachorros abandonados e cheios de doenças e feridas abertas para comer a sua carne e os seus órgãos ali mesmo, em meio ao movimento pacato do que seria um bairro tranquilo. Algo que permanece invisível, ou quando não, naturalizado pelos olhos e sentidos da indiferença. E menos importante que o vandalismo em um monumento público, o trabalho infanto-juvenil semiescravo promovido nas fazendas de cidadãos bajulados por esses senhores e senhoras de bem, também passa por esses frutíferos debates completamente despercebido.

A violência da ignorância continua, assim, reproduzindo a sua lógica natural e perversa, e esse nosso jeito de fazer o mundo no qual “certas formas de infravida são produzidas e institucionalizadas, a indiferença e o abandono, justificados, a parte humana do Outro, violada, velada ou ocultada, e certas formas de enclausuramento, ou mesmo de condenação à morte, tornadas aceitáveis” (Mbembe), ganha, na Cidade do Anjo, contornos bem definidos pelas bênçãos da boa-fé.

Quanto à Educação, num lugar em que, me aproveitando mais uma vez das palavras de Paulina Chiziane, “a usurpação do direito à vida está em voga”, haveremos de aprender, enquanto assumimos a responsabilidade, a reverter essa lógica da morte em uma lógica da vida. Do contrário, penso eu, ela nunca fará sentido.

 

 

*Achille Mbembe, A Crítica da Razão Negra.

[1] Cidade do Anjo é uma cidade como tantas outras dos interiores do Brasil.

[2] A prostituição infanto-juvenil não atinge mais apenas as meninas e meninos que vendem os seus corpos em troca do vício. Ela é um negócio lucrativo para os cafetões espalhados por diversos bairros de nossa cidade.

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