Inclusão e Disciplina

por Rodrigo Castro Francini, abril de 2015

A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero. Nelson Mandela.

Com a cópia das “Normas de Conduta Escolar” do Estado de SP em punho, iniciamos, neste 2015, o Planejamento escolar… Afora as questões já exaustivas da contextualização das normas e do currículo, da autonomia da escola e da gestão democrática; da inexistência de um Projeto Político-Pedagógico e de um Regimento Interno escolares legítima-democraticamente construídos e oficializados; a citação de Mandela em evidente incoerência com discursos de uma educação que Paulo Freire (também já citado em planejamentos anteriores) chamou de “bancária” – tecnicista e meritocrata que é –; o calendário escolar absurdo que, além de jamais cumprido adequadamente, é incoerente ao situar, por exemplo, o planejamento para bem depois do início das aulas, entre o Carnaval e o reinício das mesmas…; enfim, afora todas as “demandas” e desmandos de uma escola ultrapassada que não admite que, mesmo o que faz de melhor, não está “dando certo”, houve dois enfoques que me surpreenderam… Não sei por que cargas d’águas vindas do Céu governamental, falaríamos, segundo a pauta dos três dias de planejamento, sobre INCLUSÃO e também sobre DISCIPLINA.

Embora alguns de nós, professores engajados e comprometidos, estivéssemos mais quietos e descrentes do que de costume, não me furtei a anotar algumas reflexões sobre aquilo a que, então, passei a assistir em nossa reunião (pelo menos, nos momentos em que pude estar presente). A primeira reflexão foi sobre a “prisão necessária das palavras”. Ainda precisamos delas, nada obstante elas darem espaço a contradições e incompletudes. Ainda precisamos conceituar e definir bem, em determinado contexto, a que estamos nos referindo quando falamos em inclusão, disciplina, ensino, aprendizagem, educação… Há muita ignorância e confusão – proposital ou involuntária – a respeito de tais conceitos, e nos entendermos quanto a como definimos cada uma destas (e de algumas outras) palavras ao planejarmos nossas aulas e projetos escolares é fundamental. Creio que por este desconhecimento ou distorção, tivemos que, por exemplo, depois de falar de inclusão, quando se falava de disciplina, ouvir coisas como “a escola não deve mais aceitar receber a transferência dos piores alunos de outras escolas…” ou “o papel de educar é dos pais, e dos professores é ensinar seu conteúdo”, evidenciando um separatismo não mais aceitável na Educação (afinal, “pra educar uma criança é necessária toda a aldeia!”).
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Discursos autoritários uns após outros, sem a mínima noção daquilo que Rebul diz a respeito de autoridade (“A autoridade é necessária para que o educando não se machuque nem machuque outros, mas a Educação só acontece quando cessa a autoridade…”) – e sem lembrar que autoridade só tem sentido na proporção exata da responsabilidade, ou seja, “só possuo autoridade exclusiva sobre aquilo pelo que respondo exclusivamente” –, a impressão que guardei é que, infelizmente, esquecemos que na nossa casa e na nossa cidade não estamos fazendo o que exigimos que os alunos façam na nossa escola; e esquecemos que também fomos adolescentes… Somos preconceituosos, desorganizados, ignorantes e viciosos, “indisciplinados”, mas só queremos saber de identificar nossas virtudes; e em medida inversamente proporcional, esquecemos das virtudes dos jovens, para ressaltar seus supostos “maus-hábitos”, professores exigindo deles algo que não fazem; diretores exigindo de todos algo que não são… Tudo sem o mínimo critério de definição de “disciplina”, e com absurdas discriminações. Não pensei no dia do planejamento, mas li depois, e acho que cabe aqui, o apelo do já saudoso Rubem Alves (também já citado em planejamentos anteriores): “(…) Gostaria que os professores universitários se submetessem, voluntariamente, aos exames vestibulares. (…) Como é altamente provável que um grande número não passasse, eu inclusive, a conclusão inevitável seria a de que existe algo de absurdo nas exigências de conhecimento dos exames vestibulares. ” Oxalá tal humildade e lucidez voltem a amparar nossas deliberações escolares….

Mais do que tudo, antes do “como faremos” (metodologia), precisaríamos definir os “o que”, “por que” e “para que”, no nosso planejamento. Inclusive, o que se segue, neste ano, nas ATPCs (aulas de trabalho pedagógico coletivo – reunião semanal de professores com coordenadores pedagógicos) são análises de resultados internos sem investigar causas tampouco propor/organizar ações pedagógicas coerentemente. E, respeitado o pluralismo pedagógico e a liberdade de cátedra, não é possível fazer isto sem um PPP verdadeiramente “comunitário” tampouco com apelos para que todas as disciplinas incentivem os alunos à leitura quando nós, “educadores”, não temos lido senão nossos celulares e programas de TV. Sequer entendemos o que é contextualização; por que da divisão do currículo em áreas e quais são as disciplinas destas áreas; o que é currículo e interdisciplinaridade… Claro que o problema da leitura é o foco mais que urgente, mas nós já falamos isto a pelo menos dez anos e a coisa só piora…

O que nos lançou uma tábua de salvação – não nos salvou, mas propôs – foi uma ótima palestra motivacional proferida por uma amiga da escola, psicóloga, falando sob o título “Motivação – buscando razões para ser e fazer”. Encorajando-nos à mudança, falou de competência, habilidade e atitude de uma maneira simples, didática e completa, suficiente pra que tivéssemos conceitos mais claros sobre o que é motivação e de como nos organizarmos pra enfrentar nossos desafios escolares – o que, com todo respeito, não estava sendo feito até então com os discursos burocráticos incoerentes com os temas “inclusão” e “disciplina”. Dando um duro golpe em nossa tendência individualista, orientou os gestores a serem mais “humanos” e “incentivadores” e os professores, mais “atentos” e “dedicados”, lembrando que “a coerência entre palavras e ações se chama EXEMPLO”!

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