Um Lugar para Educar-se

“Educar a imaginação é ter fé nas possibilidades que nascem do processo educativo com vistas à construção de um mundo possível que se faz, se transforma e se constrói conosco. Trata-se, em consequência, de fazer com que as realidades inexistentes existam; trata-se de fecundar futuros plena e audaciosamente; trata-se de tornar visível o que é invisível através do permanente reembasamento do presente; trata-se de se preocupar com o inacabado; trata-se, enfim, de priorizar em nossas vidas a subjetividade e a imaginação criadora numa linha de força que dá sentido e plenitude à epopéia humana.” Francisco Gutiérrez, Ecopedagogia e cidadania planetária.

Partindo de Guimarães Rosa quando, em Grande Sertão: Veredas, diz que Mestre não é quem sempre ensina mas quem de repente aprende, e de Marcos Bagno, em Língua de Eulália, que nos relembra a etimologia da palavra “ensinar” (colocar um sinal, marcar, imprimir) contrapondo-a a “educar” (ex. duco: tirar de, dar à luz), vemos que o problema epistemológico a ser enfrentado na prática educativa é, antes de tudo, etimológico. Se “ensinar” é totalmente o oposto do que deveríamos pretender (violência no mínimo questionável), o verbo “educar”, por sua vez, apesar de infinitamente superior, também não deveria existir. Talvez, no máximo, em sua forma reflexiva “educar-se”. É todo um processo simultâneo em que se interpenetram as complexidades e as subjetividades do ser e do saber de ambos e demais lados – o da Educação. Por isto é tão paradoxal e impossível, talvez, à lógica cartesiana, compreender e realizar o mestre é quem de repente aprende acima citado.

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Foto de Duda Corrêa em Ação Cultural Juvenil versão Jardim Nova Esperança, São Miguel Arcanjo, SP, Brasil.

Não se trata, porém, neste espaço, de analisar, estudar ou aprofundar o conceito de “Educação”, tampouco abdicar das palavras ensinar ou educar, até porque, em nossas ações, falas e reflexões, as usamos e continuaremos fazendo enquanto não encontrarmos formas melhores de tentar argumentar sobre o que argumentamos. Trata-se, pois, de refletir a respeito da necessidade do educar-se em um contexto específico e urgente: o da superação de uma ordem social injusta, produtora e reprodutora de extremo sofrimento humano em um lugar chamado São Miguel Arcanjo. Uma cidade ancorada na região reconhecida como Cinturão da Miséria do Estado de São Paulo, Brasil e suas distintas faces e facetas de opressão. Um lugar em que os opressores estão próximos e os medos, interesses pessoais, ignorâncias ou a indiferença impedem as vozes de dizer; um lugar cuja distância dos campos e suas grandes plantações impedem os olhos de ver a reprodução do trabalho infanto-juvenil semi-escravo; onde a miséria de um povo é confundida com sua simplicidade e a naturalização da pobreza extrema é utilizada por nossos Guardiões do Atraso, produtores rurais e políticos atravessadores políticos e rurais e suas legiões de comparsas, como estratégia para manterem seus mitos, suas verdades próprias e sua realidade de privilégios a custa de sofrimento extremo.

Diante de tal realidade, são necessários novos modos de agir, de pensar, de viver. E para uma nova ordem de pensamentos, conceitos e práticas, são necessárias novas formas. Mas as próprias palavras “ordem” e “formas” não se aplicam ao que hoje parece necessário: desordenar, desconstruir, “desformatar”, desaprender. Talvez seja hora de transitarmos para formas menos cartesianas e prepararmos o pensamento para a desfragmentação. Talvez seja hora de caminharmos para racionalidades menos irracionais e prepararmos o pensamento para desaprender. Talvez seja essencial aos novos tempos a humildade do mestre que de repente aprende. E talvez seja necessário de repende aprender porque o modelo social de vida hegemônico – e o seu modo de vida enraizado nos homens e mulheres – estratificado, preestabelecido, vertical, fragmentado e violento – violência, “a linguagem daquele que não se exprime mais pela palavra” (Faria et al, 2009: 20) – que nega o diálogo simétrico e horizontal (o aprendizado mútuo) e impõe aquilo que deseja impor, deva aprender a dialogar, a construir em conjunto uma ordem instrinsecamente flexível, democrática, processual, complexa, coordenada, interdependente, solidária, auto-regulada em função das exigências, ausências, necessidades e urgências do dia-a-dia castigado (Gutiérrez, 1999). O monopólio da razão – irracional quando nega a subjetividade, ignora os seres, a afetividade, a vida – talvez deva ganhar da arte, de suas metáforas, de sua poesia, de suas cores, de seus passos, os sentimentos humanos como catalizadores, motivadores e impulsionadores capazes de nos colocar “- muito melhor que a razão – na pista para conhecer o ser humano, para significá-lo e para dar significado a si mesmo” (Gutiérrez, 1999: 67), para dar sentido à existência.

Talvez, portanto, mas como início para as reflexões, seja a hora, por exemplo, de não termos mais secretarias de educação, pois o poder público tenha que se chamar, quem sabe, prefeitura educacional (evitando-se, assim, inclusive, o pleonasmo nos frontispícios de nossos paços). É talvez chegada a hora de acabar com as escolas, para que a cidade seja! Então, parafraseando Deus (que, dizem, é amor), faça-se a Educação e desfaçam-se as escolas!

Rodrigo Castro Francini e Tiago Miguel Knob – Cidade Escola.

Gutiérrez, Francisco. Ecopedagogia e cidadania planetária. – São Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire, 1999.

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