A Cidade do Anjo

por Tiago Miguel Knob

Como boa parte das cidades do interior paulista, São Miguel Arcanjo, com seus pouco mais de trinta e um mil habitantes, possui uma forte tradição religiosa, o que elevou sua Igreja Matriz, em 21 de setembro de 2013, a Santuário de seu padroeiro, o Arcanjo Miguel. Foi quando nós elevamos nossa cidade à Cidade do Anjo.

Miguel, em hebraico, מִיכָאֵל, Micha’el ou Mîkhā’ēl; em grego, Μιχαήλ, Mikhaḗl; em latim, Michael ou Míchaël; em árabe, ميخائيل, Mīkhā’īl, é um arcanjo nas doutrinas religiosas judaicas, cristãs e islâmicas. O Arcanjo Miguel é considerado por grande parte da fé cristã como o líder do exército de Deus, das forças celestes, na guerra contra as forças do mal. Aquele que se levantará diante das injustiças e a favor dos filhos de seu povo quando o tempo de tribulação chegar, como anuncia o Profeta Daniel no Antigo Testamento, a Bíblia Hebraica:

Nesse tempo se levantará Miguel, o grande príncipe que se levanta a favor dos filhos do teu povo.

O livro Apocalipse descreve sua força quando em batalha nos céus comandando a legião dos anjos de Deus vence Lúcifer:

Houve no céu uma guerra, pelejando Miguel e seus anjos contra o dragão. O dragão e seus anjos pelejaram, e não prevaleceram; nem o seu lugar se achou mais no céu. Foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás, aquele que engana todo o mundo; sim, foi precipitado na terra, e precipitados com ele os seus anjos.

 Miguel significa, em hebraico,  “aquele que é similar a Deus” (mi-“quem”, ka-“como”, El-“deus”). É também considerado o modelo angélico para as virtudes do guerreiro espiritual nas batalhas internas de cada ser humano entre o bem e o mal, e mencionado, no mesmo Antigo Testamento, como o grande príncipe que defende as crianças do seu povo.

Nada mais distante é o que acontece na cidade comanda pelos homens e mulheres, agora, portanto, Santuário do Arcanjo em que boa parte de seu povo, inclusive eu, deposita sua fé. Assim, como em tantos outros cantos do planeta em que as contradições e as injustiças são visíveis aos olhos atentos – cada um da sua forma -, nesse canto, as contradições se tornam ainda mais evidentes: a cidade do anjo, de suas belezas, riquezas e de sua fé, é também uma das mais cruéis cidades de um dos estados mais injustos de um dos países mais desiguais do planeta, cujas principais vítimas são as próprias crianças do seu povo.

O município de São Miguel Arcanjo é rodeado por reservas de Mata Atlântica virgem, região reconhecida como um dos mais importantes refúgios de vida silvestre do planeta, e que recebeu, inclusive, por essa importância, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em 1998, o título de “Sítio do Patrimônio Mundial da Humanidade”[1]. A mesma região é conhecida e reconhecida, também, como o Cinturão da Miséria do Estado de São Paulo.

Por pobreza extrema, miséria, assumimos a impossibilidade da reprodução e do desenvolvimento do ser humano em uma comunidade de vida; do sujeito ético cujo sistema, norma ou ato impede de se reproduzir e de se desenvolver em seus diversos momentos como humano e vivente.

Da obrigação ética de toda ação, norma, instituição ou sistema completo de eticidade cultural de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana concreta de cada sujeito ético em comunidade, ou seja, do reconhecimento de cada ser humano como sujeito, autônomo, livre e dis-tinto (não só igual ou di-ferente) como ser vivente em toda sua dignidade absoluta de ser ser humano[2], a partir da afirmação da vida humana em seus diversos momentos físico-biológico, histórico-cultural, ético-estético, místico-espiritual, etc., recortamos a impossibilidade da reprodução ou desenvolvimento da vida em algum de seus níveis ou em todos eles causada pelo sistema.

A pobreza extrema, a miséria, portanto, é a impossibilidade do desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade. É a ausência de uma estrutura asseguradora do direito à vida em todas as suas potencialidades e dignidade absoluta para todos. Se considerarmos os índices de extrema pobreza e pobreza dos dados oficiais, é o que nós, com as estruturas sociais que criamos e reproduzimos, causamos em pelo menos 70%[3] da infância e da juventude vivente na Cidade do Anjo.

Segundo a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), instrumento utilizado pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Regional do Governo do Estado de São Paulo para coleta e análise de dados sociais, o município de São Miguel Arcanjo estava em 2008 entre as cidades mais “desfavorecidas” do Estado. Os indicadores do IPRS (Índice Paulista de Responsabilidade Social) sintetizam a situação de cada município no que diz respeito à riqueza, escolaridade e longevidade, e quando combinados geram uma tipologia que os classifica em cinco grupos. São Miguel Arcanjo se situa no último – grupo 5, cujas características são seres humanos com baixa riqueza, baixa longevidade e baixa escolaridade.

Apesar dos dados serem de 2008, as estatísticas até 2012 da Secretaria do Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, demonstraram uma continuação do perfil social do município, um aumento da pobreza e um alto índice de extrema pobreza. Segundo a Coordenadoria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, em 2006, o número de famílias em São Miguel Arcanjo em situação de pobreza era de 1602 famílias (Estimativa de Famílias com Renda de até R$140,00 – Perfil Bolsa Família – PNAD/IBGE 2006), enquanto em 2010, esse número subiu para 2075 famílias (CENSO 2010), constatando um aumento de 29,5% de cidadãos vivendo em situações precárias de vida. Quanto à Extrema Pobreza, os números também demonstram a crueldade da vida social do município. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome afirma que o índice de extrema pobreza em São Miguel Arcanjo é duas vezes maior que o índice médio de extrema pobreza do Estado de São Paulo (CENSO 2010/IBGE). A realidade social de nossa cidade permanece cruel se, por exemplo, compararmos a Estimativa de Famílias com Renda Abaixo de R$ 70,00 (extrema pobreza) (CENSO 2010), de forma proporcional entre população e extrema pobreza, à vizinha Pilar do Sul: a participação da população extremamente pobre em São Miguel Arcanjo é 41,99% maior (CENSO 2010/IBGE). Ainda, de acordo com os dados, encontra-se uma quantidade maior de pessoas extremamente pobres na zona rural em comparação à zona urbana do município, enquanto a quantidade de pessoas vivendo no campo diminuiu: a população urbana em 2000 representava 58,39% e em 2010 passou a representar 68,37% do total.

A diminuição do número de famílias e pessoas vivendo na zona rural do município, cujos motivos para tal serão analisados em outros estudos, não impede, porém, as plantações, em épocas de colheitas, de estarem cheias. Para isso, há um transporte “coletivo” das periferias do centro da cidade às grandes produções agrícolas. Geovani é um dos que o utiliza. Dessa forma, envolta e submersa às ricas fazendas e plantações, a pobreza extrema sobrevive e persiste colhendo a riqueza da Cidade do Anjo. Porém, a miséria, a pobreza, assim como é a falta de cumprimento das necessidades é, também, como comprova o jovem Geovani, origem de consciência crítica, porque é a partir da negatividade que se origina a crítica, a força, a vontade, a fome por justiça e a sede por mudança.

* Parte de um trabalho de Tiago apresentado no Programa de Doutoramento Pós-Colonialismos e cidadania global do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

[1] Julia Marques Galvão, 2012.

[2] Enrique Dussel, 1998.

[3] Pesquisa realizada entre os anos de 2011 e 2012 para nossas ações. Principalmente dos Boletins do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – www.mds.gov.br e da Fundação Seade: http://www.seade.gov.br/produtos/perfil/perfilMunEstado.php cuja data de acesso não possuo. Pesquisa realizada também diretamente na Secretaria de Assistência Social de São Miguel Arcanjo.

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