Os índios emoldurados do Itamaraty

por Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha

Os índios emoldurados do Itamaraty

Índios xamãs kamayurá, Alto Xingu, Mato Grosso, 2005.

Índios xamãs kamayurá, Alto Xingu, Mato Grosso, 2005.

Esta imagem, que retrata índios brasileiros captados pela lente de Sebastião Salgado, ficará emoldurada dentro de um dos salões do Palácio do Itamaraty, em local vedado à visitação, destinado apenas aos representantes oficiais das diferentes nações que visitam e travam relações amigáveis com nosso país. Irônico que uma imagem exprima o que há de mais significativo da nacionalidade brasileira, o que há de mais original e originário da construção da nossa identidade, a ponto de ser tomado como símbolo e representação do que somos, e, ao mesmo tempo, exprima tudo o que os dirigentes da nação sempre negaram como possível e legítimo de existir.

Na verdade, é bastante significativo que a entrada dos índios no espaço onde o Estado brasileiro manifesta sua soberania se dê nos limites de uma moldura. Ai deles se ousarem ocupar de outra forma, reivindicarem um lugar que esteja para além do passado ou da selva bucólica! Ou das lentes de Sebastião Salgado, cujas exposições fotográficas são belíssimas! Grande fotógrafo, eleva a imagem do Brasil lá fora, faz parecer que a nossa terra é selvagem apenas no sentido bom, aquele que dizem ser inspirado em Rousseau.

Os índios de verdade (isso existe?!!), aqueles fora da moldura, não são relevantes às políticas internacionais, não entram no projeto de nação que desde os primórdios da colonização portuguesa parecemos querer formatar: o de nos tornarmos civilizados. Houve diferentes tipos de moldura ao longo do tempo. Em momentos, ela significava integração, emancipação da condição primitiva e incivilizada. Em seguida, passou a significar isolamento, preservação do indígena em seu habitat nativo.

Hoje, como não querem dar mais espaço ao índio, porque ele parece querer se apropriar de todo o território nacional, basta a moldura do retrato mesmo, é mais seguro. Inimigos, traidores, pararam no tempo, não querem se integrar, não querem aceitar a inevitabilidade do  capitalismo, a necessidade do desenvolvimento, a urgência do crescimento! Não são índios de verdade, são aproveitadores, que se comunicam por smartphones, dizendo que a nova onda é garantir a parcela de terra que o governo socialista distribui!

Bom mesmo é o índio legítimo, que preserva as tradições, não fala a nossa língua, não contesta o nosso modo de vida, não incomoda o nosso sossego, sabe o seu lugar. Bom mesmo é no capitalismo, onde você tem a liberdade de ser o que quiser, de comprar um tapete  de motivo étnico para a sua sala, acompanhado de um quadro que emoldure índios retratados por Sebastião Salgado. Isso se você puder pagar, porque eles estão pela hora da morte! Barato mesmo é tirar a vida de um índio.

 

Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha é estudante, pesquisadora e advogada, nascida em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, Brasil. Foi criada no interior do estado, em Conselheiro Lafaiete, e retornou à capital para estudar Direito. Durante a graduação, participou de projetos de pesquisa e extensão que atuavam na promoção de direitos humanos e justiça urbana, junto à população das favelas de Belo Horizonte. Tornou-se também investigadora na temática dos direitos das coletividades étnicas brasileiras, realizando a sua pesquisa de Mestrado em Antropologia sobre uma comunidade quilombola urbana. Sempre engajada em propostas de pesquisa participativas, atuou em 2013 no Projeto “Cidade e Alteridade: Convivência Multicultural e Justiça Urbana”, por meio do qual colaborou no reconhecimento por parte do estado brasileiro de um território cigano em Belo Horizonte. Atualmente, é doutoranda no programa de Pós-Colonialismos e Cidadania Global”, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde intenta colaborar à construção de uma concepção emancipatória e pós-colonial do direito, estado e justiça.

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