As mortes que não podem ser esquecidas. Maria Lúcia vive!

Por Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha*

No dia 13 de agosto de 2014, uma quarta feira, mais uma liderança brasileira perdeu a sua vida enquanto lutava por um país mais justo. Era Maria Lúcia do Nascimento, ex-presidenta do sindicato dos trabalhadores rurais do Mato Grosso. Ela foi assassinada a tiros, no assentamento onde vivia, após ser vítima de uma série de ameaças vindas do proprietário da fazenda onde o assentamento se encontra. Outras lideranças e famílias vêm sendo ameaçadas e a justiça local já havia sido avisada. As suspeitas são de que o executor do crime seja um funcionário da fazenda, que dias antes já rondava o assentamento[1].

Enquanto o Brasil só tinha olhos para a tragédia que atingira o presidenciável, Maria Lúcia se tornava mais uma entre as inúmeras vítimas dos conflitos do campo, onde líderes de movimentos sociais, camponeses e camponesas, indígenas e quilombolas são assassinados todos os dias, em nome da preservação de uma estrutura fundiária arcaica e oligárquica. As suas vidas, aparentemente, valem muito pouco, já que suas mortes não merecem a atenção das mídias e redes sociais.

E por que valem tão pouco, por que não interessam?  São vidas “sacrificadas” em função do progresso, do crescimento econômico da nação, do agronegócio. Reproduz-se, assim,  uma sociedade de privilégios, de coronéis, desigual, excludente, fechada a outras economias e formas de vida, que torna certas vidas e certas mortes  tão “irrelevantes”.

Em tempos de escolhermos a principal liderança da nossa nação, é preciso lembrarmos que quase todos os candidatos e candidatas à presidência não propõem transformações ao modelo econômico e produtivo atualmente existente. Pelo contrário, apoiam e são apoiados por projetos e líderes que legitimam a usurpação e o massacre impune das populações do campo.

Por isso, vale à pena nos perguntarmos se basta a transição eleitoral para provocarmos as mudanças radicais que queremos ver em nossa sociedade. A morte de Maria Lúcia e todas que lhe antecederam mostram  que é vital resistir, agir e lutar cotidianamente, sob o constante jugo da força.

Resta-nos agora exaltar as vidas que não podem ser esquecidas, registrar a memória dos que resistiram até o fim e transforma-la em energia para as lutas que parecem impossíveis. Maria Lúcia vive!

Fonte: http://www.mst.org.br/node/16409. Acesso em 21/08/2014.

Foto de Maria Lúcia – Fonte: http://www.mst.org.br/node/16409. Acesso em 21/08/2014.

*Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha é estudante, pesquisadora e advogada, nascida em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, Brasil. Foi criada no interior do estado, em Conselheiro Lafaiete, e retornou à capital para estudar Direito. Durante a graduação, participou de projetos de pesquisa e extensão que atuavam na promoção de direitos humanos e justiça urbana, junto à população das favelas de Belo Horizonte. Tornou-se também investigadora na temática dos direitos das coletividades étnicas brasileiras, realizando a sua pesquisa de Mestrado em Antropologia sobre uma comunidade quilombola urbana. Sempre engajada em propostas de pesquisa participativas, atuou em 2013 no Projeto “Cidade e Alteridade: Convivência Multicultural e Justiça Urbana”, por meio do qual colaborou no reconhecimento por parte do estado brasileiro de um território cigano em Belo Horizonte. Atualmente, é doutoranda no programa de Pós-Colonialismos e Cidadania Global”, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde intenta colaborar à construção de uma concepção emancipatória e pós-colonial do direito, estado e justiça.

 

[1] Fonte: http://www.mst.org.br/node/16409. Acesso em 21/08/2014.

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