A Goiabeira

 por Tiago Miguel Knob

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Ilustração é de Anttonio Pereira – Projeto Saudades da Goiabeira | http://www.anttoniopereira.blogspot.pt.

Em um colégio de nossa cidade, em algum dos nossos bairros rurais rodeados de fazendas e ricas plantações, uma professora, em dois mil e onze, esperançosa, propôs uma ideia aos seus trinta e dois ou trinta e três alunos de quatorze, quinze ou dezesseis anos: “coloquem nessa caixa, seus sonhos”. Dentre todos, uma menina sonhou. Gostaria de viajar, conhecer o mundo, novas culturas, pessoas diferentes. Essa menina, sonhadora, se mostrou uma Goiabeira, com seus frutos começando a brotar, em meio a milhares de pinheiros. Suas colegas, “pinheiros fêmeas”, escreveram em um papel e botaram na caixa de sonhos seus desejos de terem muitos homens. Seus colegas, “pinheiros machos”, sonham em ter muitas mulheres e uma moto.

Se este texto se propusesse a falar dos sonhos destes jovens, acabaria por aqui. Se pretendesse entender o porquê de vivermos em uma cidade sem sonhos, não seria um texto, mas um livro. Continuo escrevendo, portanto, um texto, pra você, Goiabeira. Pra você que olha ao redor e vê um monte de gente igual, reta, falando as mesmas coisas, que pra você não fazem tanto sentido. Você se sente diferente, Goiabeira, e começa a achar que todo mundo está certo e você, a única errada. É difícil ter sonhos no meio em que você vive. Tanto é que dentre tantos, só você sonha. E esse simples fato, que pareceria ser o natural, te faz tão diferente. Mas, mais difícil, é concretizar seus sonhos nessa nossa realidade.

Um homem sábio me disse uma vez: “Há pessoas e pessoas”. Os “iguais” irão te travar. São ótimos em dizer que você não é capaz. Não adianta tentar, Goiabeira, eles dizem. Mas perdoe-os. Eles têm medo de errar, sempre tiveram. São covardes. Muitos te atrapalharão, conscientes, e encontrarão inúmeras desculpas para isso. Irão até dizer que o fazem pra você não se frustrar no futuro. Como se você também fosse covarde, como se você também tivesse medo. Sua alma é grande, Goiabeira, mas eles a querem deixar pequena como a deles. Eles querem que você seja igual a eles: “desenvolvidos?”, “racionais?”, “evoluídos?”. São, na verdade, “sem-graça”, donos de uma “razão” burra, e querem que você também o seja.

Os pinheiros ao redor irão sugar toda a sua água e cobrir todo o seu sol, necessários para encherem seus frutos, fortalecerem seu caule, esverdearem suas folhas. Mas você é persistente. Muitas goiabeiras espalhadas por aí, como você, Goiabeira, secam antes de suas raízes criarem forças para resistir aos pinheiros. Secam antes de suas raízes encontrarem outras raízes firmes, por baixo das terras, de outras goiabeiras, poucas é verdade, espalhadas em meio a milhares de pinheiros, porém, já fortificadas, cheias de frutos, com raízes profundas na terra. Aquelas que um dia sonharam como você e continuam acreditando em sonhos. É nelas, Goiabeira, que você deve se agarrar.

Há pessoas e pessoas. Estas irão te incentivar. Oferecerão a água necessária para te fortalecer, e o sol suficiente para iluminar suas folhas. Irão te apoiar enquanto você cresce, abrirão oportunidades. Dependerá muito de você, Goiabeira, mas estas te regarão, e acharão sublimes as suas frutas quando amadurecerem, e se deliciarão com seu sabor, e ficarão felizes com suas conquistas. E aí, Goiabeira, chegará o dia em que você encontrará outras goiabeirazinhas, ou limoeirozinhos, ou “alfacezinhos” em meio a milhares de pinheiros, e se tornará a luz destes.

Na verdade, você já pode ser. Você pode ser a luz de quem está ao seu redor, você pode ser “as pessoas” que abrem portas, que incentivam, que emanam luz, que sonham, que acreditam e que persistem. E você pode fazer isso simplesmente com suas palavras, Goiabeira. Com sua presença, com seu sorriso. Acredite! Por mais difícil que pareça, acredite! Mesmo que tudo esteja contra você, há pessoas e pessoas. E por mais impossível que possa parecer, Goiabeira, você pode escolher qual “pessoas” você quer ser.

Um abraço,

Tiago Mi.

*Texto publicado em 2011 no Jornal A Hora de São Miguel Arcanjo, inspirado na canção Cubo de Dazaranha: https://www.youtube.com/watch?v=FVQBAMpqH_Y depois de uma conversa com a professora.

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