Comentário ao livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”, de Boaventura de Sousa Santos.*

Por Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha**

Se Deus fosse ativista dos direitos humanos? Um dos méritos da obra de Boaventura de Sousa Santos é o de provocar indagações que raramente nos fazemos, deslocando os termos que já nos são evidentes de seus lugares previsíveis e deslocando a teoria daquele papel de repetir conclusões que não respondem mais aos nossos anseios concretos.

Além de fazer perguntas que se supõem desnecessárias, informuláveis ou já respondidas pelo pensamento resignado de nossos dias, este autor nos convida a fazer apostas. Assim como Pascal apostou na existência de Deus, contra a qual não possuímos provas, é preciso apostar na possibilidade dos direitos humanos serem emancipatórios. E apostar na tradução intercultural, aberta a infinitas concepções de dignidade humana, como formas potencialmente válidas de promover a emancipação social.

Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos, ele estaria do lado daqueles que  discursam sobre a universalidade da humanidade ocidental e eurocêntrica, impondo uma perspectiva unilinear da história? Ou ele estaria do outro lado da linha abissal, da maior parte da população do mundo, que não é sujeito, mas objeto de discurso dos direitos humanos, dos excluídos da subjetividade universal fundada pelas revoluções modernas, dos que nem sequer puderam existir ou cuja existência de sofrimento não chega a ameaçar a universalidade, do outro lado da linha?

Haveria grandes chances de que este Deus ativista fosse desacreditado pelos media hegemônicos, ameaçado pelo Estado, perseguido e assassinado pelos donos do capital, massacrado nas ruas das cidades ou no campo, como não cidadãos da ordem do fascismo social.

Mas há razões para se apostar que a política dos dos direitos humanos só tem a ganhar ao levar a sério essa metáfora do Deus ativista, ao desracionalizar e dessecularizar os seus pressupostos históricos, suas práticas de legitimação e aplicação. De outra parte, as teologias trazem um imenso potencial de enriquecimento recíproco e transformação das esferas públicas de que participam e das quais nunca estiveram apartadas.

Resumo aqui alguns pontos do porquê este livro traz interessantes contribuições a este desafio.

– Primeiro ponto: nas palavras de Boaventura, “para o bem e para o mal, a religião nunca abandonou o domínio público”. Se de um lado a religião contribuiu para a legitimação da ordem colonial, para a dominação cultural, simbólica, espiritual e epistemológica de inúmeros povos, ela sempre serviu de inspiração e motor para a luta contra a dominação, protagonizada por grupos e movimentos pertencentes a esses mesmos povos;

– Segundo ponto: o secularismo é mais uma das monoculturas modernas, na qual se assenta a universalidade dos direitos humanos, assim como a separação radical entre sociedade e indivíduo, esfera pública e privada, bem como a a limitação da religião a esta última. Embora tenha tido um caráter revolucionário e emancipatório, o secularismo reforçou estereótipos coloniais sobre outros povos e culturas, considerados pré-modernos, por promoverem concepções distintas de mundo,  das relações com o transcendente, entre espírito, matéria e natureza. Assim, além de consagrar a injustiça epistemológica, o secularismo consagrou a injustiça histórica de situar as demais cosmologias e teologias não ocidentais no passado, enquanto a modernidade seria a única detentora do futuro, na forma do progresso unilinear;

– Terceiro ponto: refutar a religião das lutas contra opressão, o que historicamente era comum entre grupos tradicionais de esquerda, só garantiu a cegueira em relação a como vivem e por que lutam os oprimidos. Para além dos exemplos trazidos no livro, que revelam como as teologias progressistas, como a Teologia da Libertação, foram e são fundamentais à luta contra a opressão e contra a globalização contra-hegemônica, lembro-me aqui do exemplo do ativista, advogado e professor Fábio Alves dos Santos. Incansável defensor dos direitos humanos das comunidades pobres de Belo Horizonte, o professor Fábio participou da organização e mobilização de centenas de pessoas sem nunca precisar ensina-los sobre as gerações de direitos, mas ao partilhar palavras de fé, esperança e comunhão;

– Quarto ponto: há fundamentalismos e teologias progressistas nas mais diversas matrizes religiosas.  A reaproximação da religião do espaço público pode tanto reforçar a intolerância e a perpetuação das injustiças sociais quanto  pode servir à superação delas. Assim como não há garantia de que a religião seja emancipatória, não pode haver juízos prévios sobre qual delas tenha um potencial mais progressista, pois tais juízos devem ser feitos nas práticas concretas de diálogo intercultural;

Quinto ponto: a reapropriação da religião no espaço público, sobretudo na política de direitos humanos, tende a propiciar o que discurso racional nos impede de ver, ouvir e sentir. Ela permite preencher os entre-lugares do diálogo intercultural onde a presença precede o sentido; o sofrimento humano é tão imenso que não pode ser expresso em palavras, mas apenas compartilhado no encontro de corpos; onde o sentido de comunidade pode resgatar o conteúdo ético que o individualismo moderno negou.

Por fim, gostaria de destacar que este livro é pequeno demais para as reflexões que provoca e os desafios que propõe. Como seu próprio autor reconhece, a obra está focada nas religiões monoteístas que tiveram um papel mais evidente nas políticas de direitos humanos do Ocidente. Há muito o que se incluir aqui sobre as perspectivas não ocidentais, as religiões politeístas, as cosmologias indígenas.

Que bom que é um livro incompleto, nos incomoda por suas falhas, não nos dá respostas definitivas. Afinal, como pessoas que se inspiram na figura de Boaventura de Sousa Santos, não devemos nós confrontar, ir para além do seu pensamento, pensar nossos próprios lugares, buscar as nossas próprias perguntas, formular nossas  metáforas?

 

Livraria Almedina, Coimbra, Portugal. Lançamento do livro Se Deus Fosse um Ativista dos Direitos Humanos de Boaventura de Sousa Santos.

Livraria Almedina, Coimbra, Portugal. Lançamento do livro Se Deus Fosse um Ativista dos Direitos Humanos de Boaventura de Sousa Santos.

 

Comentário ao livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”, de Boaventura de Sousa Santos realizado por Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha quando em seu lançamento na Livraria Almedina, Coimbra, Portugal.

**Gabriela de Freitas Figueiredo Rocha é estudante, pesquisadora e advogada, nascida em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, Brasil. Foi criada no interior do estado, em Conselheiro Lafaiete, e retornou à capital para estudar Direito. Durante a graduação, participou de projetos de pesquisa e extensão que atuavam na promoção de direitos humanos e justiça urbana, junto à população das favelas de Belo Horizonte. Tornou-se também investigadora na temática dos direitos das coletividades étnicas brasileiras, realizando a sua pesquisa de Mestrado em Antropologia sobre uma comunidade quilombola urbana. Sempre engajada em propostas de pesquisa participativas, atuou em 2013 no Projeto “Cidade e Alteridade: Convivência Multicultural e Justiça Urbana”, por meio do qual colaborou no reconhecimento por parte do estado brasileiro de um território cigano em Belo Horizonte. Atualmente, é doutoranda no programa de Pós-Colonialismos e Cidadania Global”, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde intenta colaborar à construção de uma concepção emancipatória e pós-colonial do direito, estado e justiça.

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Um comentário sobre “Comentário ao livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”, de Boaventura de Sousa Santos.*

  1. Estou curiosíssimo por ler esse livro. Sou amigo de Miguel Knobb e gostaria de incluir reflexões desse livro de Souza Santos nos materiais didáticos que estou preparando para o Curso Virtual de Filosofia da UNISUL/SC/Brasil na Unidade de Aprendizagem EXPERIÊNCIA DO SAGRADO E RELIGIÃO no capítulo Filosofia e sagrado: da Omissão às Possibilidades. Como consigo o texto? Abs de prof Jaci Gonçalves.

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