Tristeza tem fim, sim. (04/03/14 – terça de carnaval em São Miguel Arcanjo)

por Rodrigo Castro Francini

Este foi o Carnaval mais triste que já vivi. É estranho tanto quanto simbólico este paradoxo gerado em mim a partir da festa da alegria. Nascido de sofrimento e luta, com forte apelo comunitário, o Carnaval brasileiro é, em suas raízes e frutos verdadeiros, o grito da esperança e do desabafo, da alegria e do sonho por um mundo mais feliz pra todos. E justo ele, justo em mim, justo aqui em São Miguel Arcanjo, é a maior tristeza. Mas uma tristeza artificial, forjada pelo capital que não é social, não é cultural, não é juvenil. A indústria e o submundo de todos os tipos de drogas (psicotrópicas, psicológicas, pseudoalegres) subverteu tanto o sentido do Carnaval por estas bandas que o que se sente nas ruas não é a felicidade ilusória do pobre, sequer, cantada pelo Tom Jobim. É a sandice paupérrima de um povo alienado e adestrado para começar na praça e terminar no Pronto Atendimento. Morreu gente da gente. Outros tantos tomando soro quase feito das lágrimas das mães. E o fantástico vira horrendo, num show de horrorosos umbigos à mostra e à míngua, esquecidos de quem os alimentou e ignorantes de quem agora os alimenta.

Fico pensando, claro, se não é minha própria tristeza refletida nos outros… Que, de repente, pra eles, está tudo bem, tudo como deve ser. No fundo, sei que tudo é como deve ser, mas não creio em destino. É como deve ser porque assim o fazemos. E podemos mudar sempre, pra melhor! Por isto, sei que tanto a minha quanto a suposta tristeza do mundo inteiro, há de acabar nesta quarta de cinzas, contraditoriamente, e haveremos de preparar para o ano que vem um verdadeiro Carnaval.

Pela primeira vez, não me incomodei de ser outro o gênero musical mais ouvido por mim no Carnaval… Os funks e sertanejos nos bailes sem samba nem chegaram perto de ser minha preocupação, tão distante eu estava da festa inexistente. Ouvi muito, e com muita razão e emoção, o tal do Criolo Doido. Duas de cinco foi meu rit particular de um Carnaval sombrio. As marchinhas sobre o Egito só me serviram pra lembrar da esfinge tentando decifrar as gírias daquele rap triste e libertador. Nem minha Mocidade de Padre Miguel, Independente, conseguiu me devolver um pouco do ânimo, um pouco da alma exangue do Carnaval que, pra mocidade de São Miguel, dependente de tanta coisa e carente de tudo, parecia já estar morta e enterrada.

Paciência! Tristeza tem fim! Felicidade é que não tem, no que pese a genialidade (e oportunidade) da composição de nosso cancioneiro popular. Ela apenas ainda não chegou. Nem cairá do céu. Precisaremos caminhar unidos, encontra-la e vive-la juntos.

**

Anúncios

2 comentários sobre “Tristeza tem fim, sim. (04/03/14 – terça de carnaval em São Miguel Arcanjo)

  1. Cansados de nos esconder no conceito de utopia como sinônimo do impossível e inalcansável – ler histórias de vidas jovens atuantes construindo relações justas, ou seja, de utopias factíveis, tornando o impossível, possível desde aqui e agora, é uma emoção tão grande que não nos resta outra escolha senão cair no samba com o refrão “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz…” Parabéns, bênçãos e coragem, galera unida e transformadora!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s