Quando a poesia habitou em mim

“Que um dia floresça toda poesia que habita em ti” Dedicatória de A. P.

Por Maisa Antunes

Foto de Marcos Cesário.

Foto de Marcos Cesário do Sertão de Maisa.

Meu contato com a poesia chegou tardiamente, mas chegou, às vezes me vejo nervosa quando revisito minha memória e lembro dos livros que ainda não li, fico nervosa porque sei que de alguma forma eles já estão aqui, porque entraram através de outros versos que povoam cada parte de mim. Os livros que li são riscados, anotados, beijados, chorados. Sinto que Herman Hesse tem razão quando diz que “os livros querem ser gozados e amados com calma e seriedade. Só então nos revelarão as suas íntimas belezas e virtudes” (Hesse). Sinto falta dos meus livros quando eles não estão comigo, são meus cúmplices e amigos. Os poetas, as poetas falam dentro mim através de suas poesias, sejam elas expressadas em palavras, pinturas, fotografias, etc. Como educadora não ouso chamar esta experiência de natureza estética de educação, nem de “arte-educação”. Aqui quero desenhar um pouco do meu trajeto com a poesia através dos projetos artísticos dos quais participei e junto com eles o acesso a poesia através da literatura.

Meus passos traço no mundo, numa cidade desenhada à beira do rio São Francisco que coleciona histórias e fantasias. Os pescadores convivem com um cotidiano de lendas vivas; o tempo corre através de nós e do rio e convida-nos a sonhar na profundidade de suas margens. Foi do barco de Leleco, no projeto Leleco e o menino Chico – Água passageira, tendo a água e Sidartha (Hesse) como companheiros de viagem que conheci de forma mais íntima o rio, foi assim que a convivência de muitos anos com o rio se desaguou em mim. Pude contemplar minhas margens, e o que escapava da moldura, do enquadramento racional. Porque Leleco entendendo o rio e seu percurso “compreendia muitas outras coisas, muitos mistérios” (Hesse) que escoam das margens e povoam o rio em formas de lendas que saem da imaginação das pessoas para habitar o rio e depois voltam para habitar as memórias daqueles e daquelas que fazem suas vidas nas travessias de suas águas. A racionalidade ignora este saber. Esta racionalidade científica que promoveu a diáspora com seus grandes projetos de barragens e agroindústria desconhece o Nego D’Água, a Mãe D’Água, o Fogo Corredor, e os espíritos dos velhos pescadores que moram no rio.

No projeto Umbanda – o inteiro é uma banda, a fé se revelou para mim como a beleza, que é inexplicável, só precisa ser sentida e vivida. E eu com a minha cara contra o vento senti os retalhos das minhas máscaras desfiarem-se, ficando soltas ao chão, olhei-as enquanto moviam-se diante da minha fé ancorada nas referências judaico-cristã, que alimentava preconceitos diante dos mistérios da fé que incorpora espíritos, que dançam e cantam. O aforismo de Nietzsche chegou com nitidez neste dia, “não acredito em um deus que não dance”. E também as palavras de Montaigne soaram forte em meus ouvidos: “é tola a presunção desdenhar ou condenar como falso tudo o que não nos parece verossímil, defeito comum aos que estimam ser mais dotados de razão que o homem normal”.

Em Enquadrados (https://www.youtube.com/watch?v=QlvkjMajTkM), a fuga das lembranças do mundo externo do presídio desenhava rostos improvisados, de homens e mulheres, que como qualquer ser humano, construíam oásis de liberdade, alheando suas existências em consolações finitas que tornavam os dias infinitamente sufocados pela concretude dos erros sociais que produzimos. Os erros estavam ali grudados nas grades de ferro de uma cela azul contracenando com paredes brancas sujas e verdes. A estrutura padronizada do presídio, as cores combinadas uniformemente, os espaços divididos criteriosamente passava a mensagem do controle dos corpos, e também revelava formas de poder sendo conquistadas a cada milímetro de existência encarcerada. Pelas histórias ouvidas e pelo tempo compartilhado pude ver de perto as palavras de Oscar Wilde em De profundis: “dentro de nós o tempo não prospera, regressa”.

Raza-Razão (http://geraldojose.com.br/index.php?sessao=noticia&cod_noticia=10967/). Nesta experiência pude testemunhar a busca livre, da imaginação fantasiosa e redentora dos loucos, que criam seus campos de fuga da realidade opressora da loucura. Esse processo de criação de mundos assemelha-se ao mundo onírico do poeta na criação. Num manicômio em Juazeiro-Bahia vi “Ranna” (nome fictício) criar um cavalo alado para se proteger. Ela inventava uma realidade simbólica e habitava. A loucura era real, e Ranna reinventava a realidade, criava e recriava histórias para se libertar do real, das prisões mentais que a atormentavam. Essas almas sem máscaras alimentam sua liberdade com as ilusões. E eu acreditava agora, completamente, na frase que Gabriel García Marques disse em Ninguém escreve ao coronel: “as ilusões não se comem, mas alimentam”.

Em Diálogos do Riso (www.dialogosdoriso.com), poetas, palhaços, pedagogos, músicos e professores, testemunharam o poder do riso e da trupe de palhaços diante de diferentes e diversificadas experiências na sala de aula. Visitando escolas pequenas no interior do Sertão Baiano, numa cidade chamada Jaguarari, onde alguns procedimentos conservadores da educação ainda enxergam-se de perto, o riso, e as brincadeiras dos palhaços desmobilizaram qualquer situação de colonização corporal assentados nas carteiras escolares; o castigo foi suspenso sem autorização, até porque as professoras também saíram de seus próprios castigos para entrar no jogo proposto – sem palavras verbais ou escritas – pela trupe de palhaços. Foi sentindo esta experiência que rascunhei os escritos A entrega do riso:

A entrega é a experiência mais bela

porque é plena

porque é lúdica

porque parece fazer cócegas

para rir não precisa de notas

talvez só da nota musical

porque o riso tem som, ritmo e melodia

naquela tarde o riso se fez com diálogos

e teve as cores do arco-íris que Íris musicou

E, como num concerto, desenhou uma composição

Naquela tarde a música se fez com cores, gritos, gestos e risos

eufóricos e entusiasmados das crianças

no diálogo, as brincadeiras dos palhaços, com beleza e palhaçada

convidava as crianças pra pular, gritar, brincar, correr e sair do castigo

a escola parou para ver

a senhora da esquina, mesmo sem saber, contemplava

o rapaz da bicicleta parou para olhar

os risos nas comunidades visitadas entreolharam-se e riram (2011, p.16)

No projeto Samba de Lata, expressão cultural nascida de lutas, que se tornou uma espécie de ritual, e se repete ao longo de muitos anos, dialoga com a memória dos sentimentos de resistências no contexto histórico colonial. Esta expressão cultural segura em cada molejo de dança o ritmo de busca da água no Sertão e neste compasso parece fortalecer as lutas atuais frente a diferentes formas de colonialidade, sustentada pela ideia “colonialidade/modernidade eurocêntrica” (Quijano) do pensamento ocidental. Tijuaçu, uma comunidade remanescente de quilombo, na Bahia – Brasil quebra o silenciamento e negação cultural pela dança; essa dança é retratada por um poeta, que através da fotografia segura no tempo “o temperamento desse povo” e este ritmo mistura-se a “a cor do sol que banha os seus movimentos” (Cesário). http://todomundojasabia.blogspot.pt/2011/10/samba-de-lata.html).

No Blog Sob o amor, contemplei um Casamento quase feliz (http://soboamor.blogspot.pt/):

Era início da tarde quando nos encontramos, fazia sol e eu estava linda. “Ficas tão linda no sol”, declarou.

Despejou toda a sua vida em meus olhos…

A força do seu amor quebrou-me em pedaços… Sustentei-me nos fragmentos de mim mesma, tateando-me e recompondo-me num andar ainda mais coxo.

Fui pertencida pelo seu amor e fez-me prometer que o protegeria de todo o mal.

Escreveu em meu caderno de anotações essas palavras: “Os abismos das coisas (quem os nega?) em nós abertas inda em nós persistem. Quantas vezes os beijos que te dou na água dos teus olhos é que existem”. Não sei se eram suas ou de outro poeta… a vida não deixou tempo para saber…

Casamo-nos e moramos juntos num endereço que me ditou ao telefone. Tivemos uma filha, pele negra e olhos azuis… uma beleza incomum.

Ele era feliz comigo… Pedia-me que confessasse as coisas só com os olhos… para mim era bom, pois sempre tinha dificuldade de falar… também pedia que fingisse um amor desesperado, falou-me que eu fingia bem… gostava de beijar meus olhos fechados e rindo dizia que eram como cabeça de passarinho…

Às vezes procurava a mulher e só encontrava a menina… quando isso acontecia ríamos juntos..

Em Velharias vi que havia algo de estranho com a combinação entre Eu e o tempo (http://velhariascoimbra.blogspot.pt/p/eu-e-o-tempo_09.html):

Tenho comido pão com tempo esses dias

Hoje tomei café com o tempo de António

O tempo de espera do afeto caiu no ralo

Acho que vai chegar sem esperas – o afeto

Há tempos que não cabem em mim

E como peças de roupas apertadas os visto

É uma combinação estranha: eu e o tempo

Depois, sentindo-me como uma folha solta no outono, contemplei os escritos que Emília Gonçalves, em As palavras e o tempo, faço uma interpretação dos escritos de “Lili Gonçalves” (http://postaisdelili.blogspot.pt/) postais datados de 1904 a 1959 – final do século XIX; os escritos traçavam linhas de saudades, amores, amizades, tristezas, alegrias e dores que sempre acompanham a alma do ser humano, em qualquer época e lugar onde ele ou ela faça existências.

As folhas dançam ao sabor do vento que as levam de um lado para outro. Elas trazem consigo a verdura dos seus dias anteriores… Sabem a que árvore pertence… Querem permanecer… Mas já não conseguem… e cheias de saudades se vão… Deixam-se serem levadas pelo vento, porque agora precisam ir, nem mesmo elas sabem por quê… É sempre assim… é assim como as palavras de Lili Gonçalves, que arrancadas pelo tempo espalham-se num chão poroso, encharcado de ternura, dor e amor, repetindo-se sempre nos encontros e desencontros que atravessam o olhar daqueles que se cruzam e se olham… voltam e tornam a se olhar… amam e sofrem… Ouvi esses dias ao telefone: “entre a dor e o nada eu prefiro a dor”… E assim vamos sofrendo como as folhas cheias de saudades… Amando como Lili… Repetindo os dias que já não cabem em nós.

Em meio a essas experiências de natureza estética, alguns romances literários, imagens, poemas… a poesia dessas obras ficaram retidas dentro de mim. E como relata Miguel Torga em seu VIII Diário, ficaram “gravada no meu espírito como numa placa de bronze”, aderi de forma tal que passou “a fazer parte do que sou, como se fosse um dedo a mais que me crescesse na mão” (1959, p. 125). Sim, assim são alguns e algumas poetas pra mim e a poesia que eles e elas me dão.

O contato com a arte levou-me a caminhos de reinterpretação do mundo e dos sentimentos pelo prisma da poesia. Algumas poucas obras literárias que acessei levaram-me ao mesmo lugar, a mim mesma, e foi nesse percurso em direção a mim que vi o aforismo de Nietzsche “quando a arte se veste do tecido mais gasto é melhor a reconhecemos como arte”; o desgaste – a vida? – talvez sim, porque a poesia toca nessa “farinha” como diz Adélia Prado, somos feitos da mesma “farinha”, temos fome de beleza; o poeta, a poeta toca no ser humano, na dor, no amor, no lugar que qualquer pessoa conhece ou intui. Já não dá para nos escondermos diante de uma obra de arte.

Também a convivência com a poesia levou-me a vida dos poetas e pude ver a intensidade como eles e elas sentem as coisas do mundo, deve ser por isso que encontraram formas para transver o mundo. António Lobo Antunes tem uma crônica “Tenham Piedade de Nós”; lembra os poetas que ele ama e pergunta: “Conheces algum artista que não sofra, conheces algum artista feliz?” Lobo Antunes fala dos poetas como seres “atormentados, contraditórios, num desespero e numa angústia constantes, mesmo sob o humor, sob a alegria”. E diz como poeta “é necessário remoermos as passas do Algarve para que o leitor tenha prazer”. A beleza que nos dão os poetas “saiu-lhes do pêlo, rasgaram a alma por ela”. E suplica piedade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s