Pela longa estrada eu vou, estrada eu sou.

por Julia Marques Galvão

“Cada história uma realidade. E eu, por curiosidade, conferi por 10 vezes e concluí que tem de Capão Bonito a Iguape 585 curvas, 26 pontes de concreto, 3 fontes de madeira, 25 córregos com tubo de cimento, 3 cachoeiras na beira da estrada, tem também 4 bicas com água cristalina e 15 igrejas católicas na beira da estrada para quem quiser rezar” (Jango Perna, Romeiro).

Como a maioria das cidades do interior, São Miguel Arcanjo possui uma forte tradição religiosa, ficando evidente principalmente entre o final de Julho e início de Agosto. É nesta época que centenas de pessoas com variadas intenções, empreendem uma viagem rumo a Iguape a pé, a cavalo ou de bicicleta, com o intuito não só de louvar o Senhor Bom Jesus de Iguape, mas também em busca de uma viagem que possibilita momentos de reflexão, oração e agradecimentos.

A Romaria de Bom Jesus de Iguape é uma prática centenária, entretanto não se tem com exatidão a data de sua origem. Existem casos de cinco gerações empreenderem esta romaria, segundo entrevista com romeiros de longa data. A UNESCO (2006) afirma que o patrimônio imaterial transmitido de geração em geração é constantemente recriado pelas comunidades, em função do ambiente, contato com a natureza e de sua história, gerando sentimento de identidade e continuidade.

São Miguel Arcanjo se torna um ponto de convergência de diversos grupos vindos de várias localidades,  e muitos destes recebem a benção do padre na Praça Matriz. É um momento importante da romaria, no qual se definem as intenções individuais e coletivas. A romaria é um ato que desperta relações de amizade, bondade, companheirismo e respeito ao próximo, pois os grupos partem para uma caminhada de três a cinco dias com a intenção de chegarem juntos, implicando em gestos de solidariedade de cada indivíduo.

“Eu não faço a romaria por promessa, e sim, por penitência. Isso (a penitência) não é nada perto do que Jesus sofreu. Jesus não faz nada para cobrar nada de ninguém, faz tudo de graça, nós é que somos ignorantes” (Jango Perna, Romeiro).

Foto de Julia Marques Galvão. Mirante do Vale do Ribeira, Parque Estadual Carlos Botelho, "Serra da Macaca".

Foto de Julia Marques Galvão. Mirante do Vale do Ribeira, Parque Estadual Carlos Botelho, “Serra da Macaca”.

Com as diferentes motivações os grupos descem a “Serra da Macaca” e caminham por alguns dias dentro de uma Unidade de Conservação, o Parque Estadual “Carlos Botelho”, classificado pela UNESCO em 1998, como Sítio do Patrimônio da Humanidade. E é neste refúgio de vida silvestre que os caminhantes, cavaleiros e ciclistas, percorrem o único trecho que não sofreu interferências de urbanização, sofrendo poucas transformações, desde as primeiras romarias. E é a partir deste trecho que as reflexões pessoais acontecem, pois nada mais simbólico que a caminhada em um ambiente que é pura vida, em um silêncio que é predominante, quebrado apenas com os sons da natureza.

“Ir a Iguape a pé sem passar pelo Carlos Botelho, não teria sentido nenhum (…). É um local para contemplação, para usufruir o maior tempo possível (…) muitas pessoas dizem fazer este trajeto por ser o único caminho, mas é o caminho abençoado por São Miguel Arcanjo e Bom Jesus de Iguape” (Eduardo dos Santos Terra, Romeiro).

Foto de Rafael Meira, Serra da Macaca, São Miguel Arcanjo - SP, Brasil.

Foto de Rafael Meira, Serra da Macaca, São Miguel Arcanjo – SP, Brasil.

São 33 km de estrada em meio à Mata Atlântica, único trecho do percurso ainda intocado pelo “progresso”. Alguns pontos se tornaram importantes no decorrer dos anos de existência da romaria. Um deles é a “Bica”, no qual os grupos param para tomar a água gelada e cristalina ou esperar outros companheiros que ficaram para trás e jogar conversa fora. Atualmente existem diversas infraestruturas que auxiliam os romeiros, porém o “cansaço, o sofrimento, a dor e os calos nos pés continuam”.

Existem romeiros que fizeram e ainda fazem este percurso por 30, 40, 50 e até mesmo 60 anos, ficando nítido o bem que esta caminhada lhes proporciona quando se escuta a emoção nas vozes ao afirmar que continuarão nos próximos anos enquanto forem vivos, pois as bênçãos que recebem não é nada em comparação aos dias que passam acampando, caminhando com chuva, frio e com as bolhas que vão surgindo nos pés. Quando chegam ao destino final se sentem cansados, fracos e abatidos, porém realizados. Para eles não é imprescindível assistir às missas ou entrar na Basílica de Iguape para pedir a benção à imagem do Senhor Bom Jesus, já que para estes romeiros, ele esteve presente durante todo o trajeto os acompanhando.

“E nóis não pára mais enquanto for vivo”. Diz Jango Perna, romeiro desde 1949.

Foto de Julia Marques Galvão. Procissão do Bom Jesus em Iguape.

Foto de Julia Marques Galvão. Procissão do Bom Jesus em Iguape.

*Este texto é parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharel em Turismo, de Júlia Marques Galvão, pela Universidade Federal de São Carlos. A pesquisa abordou a Romaria do Bom Jesus de Iguape, a segunda maior do estado de São Paulo. O vídeo a seguir é um dos resultados desse trabalho:

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