A arte e a educação 2

 por Maisa Antunes

O modelo educacional do nosso sistema social vigente espelha-se no cumprimento de acordos sociais confortáveis para uns e insustentáveis para boa parte da população. A educação respira a emoção da lógica da propriedade privada, um emocionar acionado na transmutação da cultura matrística para a cultura patriarcal (Maturana, 2004). Sendo sustentada e atendendo a um modelo de sociedade. A educação é pautada para agir a partir da homogeneização e uniformização dos indivíduos. Mesmo considerando os movimentos anti-coloniais existentes na educação, oficialmente, esta ainda fica presa a dogmas morais e interesses econômicos, que forma e enquadra o cidadão de acordo com as necessidades de sustentabilidade de um sistema capitalista e utilitarista.

Tendo a arte condição existencial de difícil colonização e de não submissão a qualquer interesse – seja este o mais nobre possível – parece um tanto contraditório oferecê-la para alcançar objetivos, uma vez que a arte desaparece por completo “quando uma sociedade, ou um poderoso segmento da sociedade, ou um governo de qualquer espécie, tenta impor ao artista o que ele deve fazer” (Wilde, 2008, p. 45).

Dentre os belos e provocantes contos presentes em “Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano destacamos dois para contemplar “a arte e a educação”: “Arte para as crianças” e “A arte das crianças”. O que cabe na poesia não cabe na necessária lógica racional da educação oficial e de suas demandas próprias para alcance de resultados previsíveis.

Arte para as crianças:

Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um prato de sopa que chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda: – Conta uma história para ela, Onélio – pediu. – Conta, você que é escritor…

E Onélio Jorge Cardoso, esgremindo a colher de sopa, fez seu conto:

– Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia: “Você vai ficar anãozinho, passarinho, se não comer a comidinha”. Mas o passarinho não ouvia a mamãezinha e não abria o biquinho…

E então a menina interrompeu: – Que passarinho de merdinha – opinou (GALEANO, 2008, p. 40).

A arte das crianças:

Mário Montenegro canta os contos que seus filhos lhe contam. Ele senta no chão, com seu violão, rodeado por um círculo de filhos, e essas crianças ou coelhos contam para ele a história dos setenta e oito coelhos que subiram um em cima do outro para poder beijar a girafa, ou contam a história do coelho azul que estava sozinho no meio do céu: uma estrela levou o coelho azul para passear pelo céu, e visitaram a lua, que é um grande país branco e redondo e todo cheio de buracos, e andaram girando pelo espaço, e saltaram sobre as nuvens de algodão, e depois a estrela se cansou e voltou para o país das estrelas, e o coelho voltou para o país dos coelhos, e lá comeu milho e cagou e foi dormir  e sonhou que era um coelho azul que estava sozinho no meio do céu. (GALEANO, 2008, p. 41).

Defendemos a presença da arte no contexto educacional; porque compreendemos como uma importante oportunidade de acesso a arte, tanto às obras, como a biografias dos artistas, o conhecimento da História da Arte; e também como possibilidade de experimentar experiências de natureza estética diante da beleza da obra, da poesia que a obra de arte traz. Entretanto queremos olhar com mais atenção ao que chamamos de “Arte-educação”, para refletirmos os equívocos epistemológicos que podemos cometer atribuindo um caráter educativo para a arte. Que a presença da arte na educação se concretiza com espaço de encontrarmos um lugar para a poesia, para olharmos o mundo com a imaginação de uma criança, e com a revolta de um poeta; para comunicarmos beleza sem a necessária lógica racional intencional e curricular de se chegar a resultados previsíveis e homogêneos.

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