Sinto falta dos chicotes

por Tiago Miguel Knob

Como todos os outros, permanece ali até o fim da tarde mas, diferente da maioria, depois continua

O ambiente é rico, cheio de vida, de água, de mata, de terra, cuja paisagem oferece uma das visões mais belas da natureza e sublimes no horizonte, ao fim da tarde, quando o sol se põe. Uma visão, porém, difícil de apreciar quando o cansaço é imenso e as mãos, braços e pernas estão dormentes, inchados e cheios de dores. Além do peso daquilo que carrega, há o veneno das formigas, grandes e famintas, feroz aos humanos. Na verdade, ali, os humanos são mais percebidos como humanos por esses pequenos animais do que por aquele que passa constantemente por eles em sua caminhonete grande, preta, quatro por quatro e imponente, com os vidros escuros e fechados. Não se sabe exatamente quem está ali dentro protegido do calor insuportável pelo ar condicionado, mas sabe-se que há alguém acompanhando o que acontece do lado de fora.

Distante uma eternidade da riqueza natural e material que o cerca, o garoto segue persistente e sobrevivente, com o pensamento em casa, em suas meninas, princesas, guerreiras da vida e esperançosas de um futuro. Cada vez mais consciente de quem o escraviza, o que tem assustado alguns donos do poder, é do pensamento em casa e da gana indignada por justiça que tira forças para caminhar, chegar ali, perto das cinco, seis da manhã com o ônibus cuja única identificação é “Rural” e que percorre todas as periferias da cidade recolhendo os filhos da terra para mais um dia de trabalho, e ali ficar com os tantos outros até o fim da tarde.

Os discursos eleitorais e insistentes, teimosos, hipócritas, incapazes e impotentes ainda convencem uma parte de um povo inconsciente de ricos e pobres. A uma outra parte de pobres e ricos, também considerável, não são os discursos que convencem, mas os favores pré e pós eleições que vão desde sapatos doados a cargos públicos de confiança e contratos públicos com empresas realizados a partir de arranjos criminosos. Mas não ele. Este faz parte de um outra parte da população, cada vez maior, de pessoas conscientes que não se deixam enganar e tão pouco estão a venda. Enquanto não luta pela sobrevivência, com a mesma gana luta ao lado de muitos para quebrar as cadeias que aprisiona a ele a todos os seus, guiado pela solidariedade que, na maioria das vezes, dos que vivem sob a égide do modo de ser moderno, só pratica quem dela a sobrevivência depende. Ele sabe que o modo de vida moderno é cruel, desumano, desumanizante, como refletem e ensina, pois sente na pele a face irracional de uma cidade, num mundo, comandada pela ambição de alguns e a ignorância mesquinha de muitos.

O inverno logo vem e a água não é quente. Não há muito tempo a perder

Mas sem escolhas, por enquanto, o jovem adulto segue para colheita. Precisa sobreviver e sustentar sua pequena filha, ainda nos primeiros anos, linda como a mãe, que vive em um pequeno barraco na periferia da cidade. Infelizmente não basta apenas o dinheiro para a janta de hoje e o almoço de amanhã. Ele se preocupa também com o inverno que logo vem. Lá, as safras já terão acabado e não será mais necessária sua força para encher os sacos e sacos com as batatas que saem em enormes quantidades da terra. Quanto mais pesadas forem as sacas com as quais vai enchendo os caminhões, mais dinheiro recebe. A cocaína, por exemplo, é muito utilizada para dar ânimo e resistência nas lavouras. Ele prefere não usar. Para ganhar tempo, muitas vezes não almoça porque, o inverno vai chegar e a água de sua casa não é quente. Sua menina, sorridente como todas as crianças, não pode passar frio.

Enquanto vive os dias carregando os quilos de batata nas costas, relembra com saudade sua infância, aquele tempo aconchegante em que sua mãe era viva e que, apesar de todas as dificuldades, se sentia protegido, tinha a quem recorrer. Uma guerreira que nos faz lembrar o trecho da canção de Milton Nascimento, uma mulher de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta. Mais uma guerreira da vida que passou ao filho sua garra e ensinou vivendo o que é dignidade, algo tão ausente nas estruturas de poder. Lembra que quando ainda era criança, sem ter com quem ou aonde deixá-lo, o levava para a lavoura. Foi quando aprendeu a colher a uva. Queria ajudá-la a encher as caixas e carregá-las nos caminhões porque há tempos a lógica é mesma: quanto mais caixas, mais recebia pelo pequeno valor destinado ao trabalhador, neste caso, à trabalhadora da colheita de uma uva que não era dela, mas de um outro cidadão, muito respeitado também, do qual não conhecia mas que via de relance dentro de uma outra imponente caminhonete da época que circulava a plantação.

Nossos grandes produtores rurais, grandes responsáveis pela riqueza do município, preferem as mulheres mais maduras pois são mais jeitosas para colheita da uva, uma fruta delicada, dizem. Talvez por isso, para elas, não há, há décadas, outras possibilidades de trabalho. Já para a colheita da batata, são melhores os jovens com sua força e resistência. Por isso não permitem com que subam nos ônibus rurais os velhos precoces ainda com seus cinquenta e poucos anos. Para estes e suas famílias, as esperanças são reduzidas. E talvez por isso também, não há, mais uma vez, há décadas, qualquer outra oportunidade em que o jovem possa se agarrar para sobreviver. Alguns em sua ignorância dizem o contrário, outros, principalmente os profissionais políticos, há anos, dizem que se está trabalhando para isso. Há anos! Infelizmente algumas ações supérfluas, na maioria hipócritas, enganam os mais desavisados. Mas não há qualquer ação política do governo do município, há anos, tão pouco iniciado agora, capaz de resolver os problemas produtores e reprodutores do que há de mais cruel, perverso e insuportável na cidade conduzida pelos homens: o trabalho infantil e juvenil semi-escravo, a prostituição infantil e de adolescentes e o consumo de crack entre crianças e jovens. E infelizmente, não é à toa. Se não mantivermos controlada a miséria necessária, quem colherá a uva, a batata, quem carregará a madeira a um trabalho e um salário de semi-escravidão, este que é um dos mais baixos salários do Estado de São Paulo e coincidentemente igual em quase todas as plantações? Trata-se de uma das máfias mais bem organizadas pelos homens da Cidade do Anjo.

E há aqueles que não conhecem o poder de ser um verdadeiro homem, e talvez nunca conhecerão

O pai, infelizmente o rapaz não conheceu. Nunca soube o motivo. Quando sua mãe morreu sem explicações dos médicos da nossa saúde pública, não pensou muito e, com apenas doze anos, para alívio de alguns professores e diretores, abandonou a escola. Precisava sobreviver. E não foi fácil. Na verdade, o que mais o surpreende é estar vivo, apesar de tudo. Chegou a traficar para garantir alguns almoços, e relembra ser este um dos poucos momentos em que foi percebido pela sociedade que o rodeia pois o desejava preso.

Foi quando, por força de Deus, segundo os pastores que se multiplicam em meio à miséria o explicam, conheceu a menina que agora é mãe de sua princesa. Decidiu, então, levar uma vida digna de trabalhador, e segue tentando. Mas como levar uma vida digna de trabalhador em uma cidade cruel, desumana, estúpida e preconceituosa, em que os senhores respeitados são esses do ar condicionado, e que muitas vezes vemos tomando as decisões políticas mais importantes para nossa cidade, ao lado de servidores públicos mudos, muitos vendidos, outros acomodados em seus cargos políticos? Decisões estas, e isso ele sabe bem, que deveriam transformar as estruturas que o escraviza, segundo inclusive os discursos eleitorais, mas que ao contrário, fortalecem a escravidão imposta e invisível.

Enquanto não entrar em desespero, e não sei como não entra, e não invadir um comércio de um bom cidadão para garantir o dinheiro do gaz capaz de esquentar o almoço de suas meninas, permanecerá invisível. Do contrário, se invadir, roubar alguma parte da fortuna que gira a economia da cidade, e for finalmente notado, esse bom cidadão atacado pagador de seus impostos e eleitor dos senhores do ar condicionado, se chocará, e exigirá da polícia e das autoridades ações efetivas. E essas autoridades ouvirão o bom cidadão, e aumentarão a repressão aos marginais, e suas palavras encontrarão eco nas redes sociais e em colunistas, grandes velhos moralistas, de jornais. E encherão nossas praças de câmeras a partir de contratos no mínimo estranhos com empresas que os convém, e investirão nosso dinheiro público em uma tentativa anunciada de controle impossível, enquanto ignoramos e excluímos todas as possibilidades de desenvolver uma educação capaz de emancipar.

Assim, nossos vereadores continuarão sobrevivendo e se reelegendo a base de caronas e favores aos seus eleitores, e o nosso executivo seguirá ouvindo e sendo aplaudido pelos bons cidadãos que pagam seus impostos e que podem aproveitar nossas festas milionárias em seus camarotes: a Cidade do Anjo é Capital da Uva Itália e, nessa época, já são anunciados os grandes espetáculos da velha política do pão e circo. E assim tudo ficará certo, na miopia causada pela ignorância do nosso tempo.

Quanto ao garoto preso, se assim não resistir, a hipocrisia estúpida anuncia o dever cumprido. Porém, não poderá mais colher a batata, ou a uva, tampouco será capaz de carregar a madeira das grandes empresas donas de uma cidade que segue seguindo à risca a lei maior do primado da economia sobre a política. Mas não há com o que se preocupar. Como ele, há milhares, fora das escolas, necessitando sobreviver. Mão de obra escrava não falta em uma cidade cruel, desumana, preconceituosa, estúpida e politiqueira. Invisíveis, eles seguirão colhendo nossa riqueza em um ambiente rico, observados por nossos senhores respeitados em seus grandes carros imponentes, mantidos por nossos grandes Guardiões do Atraso, políticos discursadores que todos os domingos estão na missa recebendo a ostea e, às vezes, falando em Deus ao microfone, e que se revezam a cada quatro anos nas carcaças do poder. Aqueles, parafraseando um grande amigo, engravatados servidores se achando príncipes, com o rei na barriga e com o coração quase explodindo num infarto de ambições e desesperos, que não conhecem o doce e forte poder que nenhuma manipulação ou monopólio poderão vencer: o poder legítimo de ser um verdadeiro homem! Homem como é esse jovem sobrevivente, resistente e lutador. Na Cidade do Anjo, só sinto a falta dos chicotes.

Um fraterno abraço, Tiago Mi.

 

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