Crianças: Silêncio!

por Rodrigo Castro Francini

(algumas reflexões com base na palestra de Rubem Alves, por ocasião do 1.º Congresso de Educação de SMA – 05/09/08)

Logo de início, o palestrante dá-nos um tapa com luva de pelica. Se foi intencional ou não, quero crer que sim. Estava eu um pouco incomodado com a falação dos “alunos-educadores”, pois além de querer ouvir a palestra – que já começara –, pensava também na contradição do querer silêncio em sala de aula… Não preciso nem completar, né?! Mas o Rubem, fantasticamente motivado do alto de seus setenta e cinco anos perdidos (ele brincou com essa história de que não deveríamos falar “tenho tantos anos” e sim “não tenho…”, porque já ficaram pra trás – brincadeira que revela, talvez, o princípio de que derivou os poucos posicionamentos do insigne educador dos quais discordei um pouquinho, mas já já falo sobre)… o Rubem, como eu dizia, se encarregou de amenizar a surdez de nossas bocas, contando que estivera em uma escola, num encontro com crianças, e ao notar o desespero de uma professora querendo que elas prestassem atenção, acalmou-a, dizendo que com as crianças ele se entendia e que a função delas não é realmente ficar quietas e atentas… (e completou) “como vocês, aqui, hoje, estão, prestando atenção em silêncio”. Tive a impressão que a partir daí a palestra transcorreu tranqüila, pelo menos pra mim.

Notando alguns se esforçando para anotar suas palavras (eu, orgulhosamente, havia decidido não fazê-lo), recomendou que não fizessem, pois “jamais a gente consulta as notas que toma” (no que ele tem razão). Mas, curiosamente, foi logo depois que, não tomando notas de estudo, mas anotando com outro intuito, passei a registrar pontos interessantes – ora poéticos, ora políticos… – da fala do professor da UNICAMP.

O primeiro destes pontos foi seu comentário sobre os ipês da entrada da cidade, relacionados ao seu livro “…”. Não tinha nada a ver com a palestra, mas fiquei perdido em digressões (perdendo, é claro, aquele pedaço da conversa) a respeito da questão política: “ish!  Será que foi algum dos candidatos a prefeito nestas eleições que plantaram os tais?…”. E cheguei a uma conclusão muito profunda e bela (que foi justamente minha primeira anotação proibida: “não pode interessar quem plantou os ipês”… Jamais! Se olharmos as pessoas que estão ou pensam estar por trás das coisas boas que acontecem, a visão se distorce, seja por interesses escusos ou – como no meu caso – repulsa a eles; por incapacidade de separar sujeito e objeto, fato e opinião, indivíduo e obra, ou pela proporcional incompetência em entender que tudo é tudo e nada é nada; ignorância ou preconceito… Acho que compliquei mais as coisas… Então, voltemos à profunda e bela conclusão, deixando suas aplicações à imaginação alheia: jamais pode interessar quem plantou os ipês!

E é aí que o bicho começa a pegar. Essa separação do que é ético (ou não) de quem o pratica (ou não) me pareceu imprescindível para nortear as revoluções propostas pelo Rubem Alves. A impressão que tive é que, na ausência disso, em geral, as pessoas saíram de lá ou mais acomodadas com sua própria “desconstrutivista” omissão (justamente por se fazerem surdas aos apelos principais que ele lançou em direção do amor), ou mais decepcionadas com a permanência, em si, do velho pretexto: “tudo utopia…”; da velha contradição: “na prática, a teoria é outra…”. Parece que faltou o “como fazer” e o “olha como deu certo, sim!”. As crianças-educadores ainda precisam acreditar que realmente é possível e, como ele mesmo disse, do exemplo de que fez e faz certo, e dá certo.

Falou-nos, por exemplo, do “outro significativo”. O semelhante que tem significado pra nós. Batendo nos burocratas (e com humor sutil, em especial, nos diretores de escola), sugeriu-nos que o outro significativo principal, pra nós, educadores, deve ser o aluno, e que não devemos dar tanta importância à nossa disciplina (aliás, confessou não gostar da palavra, que associa a “militar”), ao nosso Diretor… Que o importante é emocionar o aluno, amá-lo, fazer com que essa relação de ensino-aprendizagem seja significativa. Abaixo à análise sintática, logaritmos e outras coisas chatas que jamais aprendemos na escola. E nisso, concordo “em gênero, número e grau”. Mas não deixa de ser arriscado dizer isso sem explicar o que fazer e como. Sei que pode parecer um esquema sistemático disfarçado este de “dizer como e o que”… afinal, o que se propõe é justamente a criatividade, a crítica, o aprender a aprender… E também pode parecer arrogância esta preocupação, ao passo que me coloco fora deste risco… O risco, contudo, não deixa de subsistir. Imagine o professor que só sabe ensinar sintaxe e que viva rezando aquela ladainha de que hoje os alunos não se interessam mais, e não aprendem mais, e a família não apóia a escola, e o professor está cansado de tudo… E, daí, tiram dele o que realmente têm que tirar, mas o deixam mais vazio do que nunca… É como a questão das drogas: não adianta falar ao usuário que é ruim, pois ele acha bom, sabe que lhe dá prazer. A questão é fazer com que ele possa entender que há algo mais e verdadeiramente prazeroso e menos nocivo e inútil. Achei que faltou isso na palestra. Meus olhos brilharam com a rebeldia apaixonada de um senhor jovem e verdadeiro educador, mas foram se apagando conforme a palestra se aproximava do fim e não surgia aquilo que Paulo Freire dizia ser obrigatório após a boa rebeldia: a inserção.

Ainda falando sobre essa “burrocracia” (ele não usou o termo, mas eu uso, com respeito e ânsia), falou sobre três professores que realmente mudaram a vida de seus alunos, mas a única a que fiz referência em minhas malditas anotações foi a história de Inácio de Loyola Brandão (nome revelado só no final da história, mas que antecipo propositalmente). Contou-nos, com admiração pelo professor, que o então jovem Inácio foi favorecido pelo mestre que notou sua “vocação” e liberou-o de sua matéria, forjando notas aprovadas que o menino não conseguia. Burlou, portanto, a burocracia em favor do aluno. Sem se prender às estanques “disciplinas”. E eu me pergunto – eu, que quase concordo e até me emociono com a atitude visionária do tal mestre –: até quando burlaremos em vez de mudarmos. Será que é ingenuidade minha (pra não dizer burrice) acreditar que a luta não deve ser por burlar e sim modificar o sistema “legal e injusto”? Elogiou, ainda, professor que garante aos alunos freqüência e nota, facultando-lhes a escolha de estar ou não em sua aula. É, sem dúvida, a aula ideal! Então, por que não lutamos pra mudar o sistema de notas e freqüência, pra que não tenhamos que perpetuar a mentira, desvestindo diabos pra vestir outros?! A questão vocacional e mnemônica (a consideração da vocação do educando e a necessária desmistificação da memória perfeita) foram propriamente abordadas, mas ficou-me, ainda, a impressão do risco de um utilitarismo alimentado, que pode livrar da inutilidade de certos conteúdos, mas pode, por outro lado, levar à inutilidade cidadã.

Como foi bom ouvir tantas vezes a palavra liberdade – e tendo esse conceito como indissociável de responsabilidade, não me inquietei, pois que o amor defendido pelo palestrante já dava o tom de ambas. Como foi bom ser incitado a dar ferramentas verdadeiramente necessárias para a vida de nossos alunos, despertando-lhes a fome de saber! Só não foi muito bom ouvir outra dissociação – e agora muito clara e sistematizada –, a respeito da velha (e ultrapassada) dicotomia Deus-ciência. Entendo que, pelo exemplo que ele deu, Deus às vezes entra na história como pretexto de estagnação, conformismo, ignorância. Mas pôr, por isso, Deus fora desta jogada de amor, é, no mínimo, e de novo, arriscado. Arriscado não por castigos que certamente não virão da parte Dele; não pelo fanatismo ou misticismo, realmente precisados de um fim; tampouco pelos sectarismos preconceituosos ou ceticismos mais ainda. Arriscado, principalmente, pela atitude igualmente anti-científica de excluir algo do contexto, algo que, inclusive, está virando artigo de ciência mais do que de fé.

Criticando a insistência contemporânea em formar consciências críticas (“por que não se fala em formar consciência estética, consciência erótica…”, disse), Rubem Alves terminou (pelo menos pra mim, pois que foi a última anotação), dizendo uma grande verdade: a da maluca idéia do educador de se aposentar! Perguntou, sensatamente, se quando a gente ama algo ou alguém, a gente pensa em se aposentar daquilo ou daquele… Concordo. Sei que não importa muito, mas concordo. De coração (sem querer ser redundante…)! Afinal, para que nossas salas de aula não se torne aposento arcaico de traças, ferrugem e ladrões, há que despertar o amor pela Educação! Pra todos nós, falta algo pra esse germinar integral, graças à educação fragmentária e capenga em que fomos criados e que sustentamos. Para mim, falta tanta coisa pra compreender e seguir este cara fantástico que nos falou por mais de uma hora com tanta paixão e simpatia. Para ele falta, talvez – e quem sou eu para afirmar algo sobre alguém, eu que vivo dizendo que não conheço bem nem a mim mesmo –, a certeza de que o tempo não existe, e que jamais nos perderemos definitivamente (certeza esta que, ao contrário de acomodar, acelera nosso passo rumo a fraternal, definitiva, eterna conquista do bem comum).

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Um comentário sobre “Crianças: Silêncio!

  1. Rodrigo, meu caro e saudoso irmão. Li, por acaso, esse texto sobre a palestra do Rubem. Sei que este comentário é tardio, mas, ainda assim, me senti mobilizado a escrever uma resposta, embora eu não tenha tempo para fazê-lo direito. Gosto muito, e você sabe disso, do caminho menos “idealista” (entenda-se: menos “ingênuo”) que você tem traçado. Entretanto, quero considerar, assim, à queima roupa, algumas de suas colocações e fazer algumas perguntas ao léu. Quem foi Rosseau? Quantos filhos teve Rosseau? Quantos viveram com ele e por quais razões? Quem foi Lutero? O que fez Lutero e qual o impacto do seu legado para a civilização ocidental? Lutero admirava os judeus? Deixo essas perguntas, talvez até sem saber porquê, mas, certamente, nalgum momento essas respostas se conformarão em sentido mais amplo para você ( e para mim também). Ao fazer essas perguntas, gostaria que refletisse mais calmamente e, talvez, menos apaixonadamente, sobre a questão de “quem plantou os ipês”. Concordo que um ipê possuí em si um valor intrínseco (caso queira chama-lo de beleza, fique à vontade!). Entretanto, valores extrínsecos, não necessariamente vinculados a essa beleza, podem fazer parte do contexto, como você mesmo cita em seu texto (será que eles foram plantados por uma questão eleitoreira?). Me parece um engano pensar que apenas o valor intrínseco de um dado objeto seja o ponto de interesse do olhar humano preocupado com o amor e com a beleza. Ora, não buscamos a compreensão da totalidade? Isso implica em também compreender as sombras, meu amigo!!! Tanto buscamos que, se fosse ao contrário, os ipês nem teriam entrado em seu texto! Não é preciso “tolerar” a sombra, mas é preciso compreendê-la, e sua afirmação “jamais pode interessar quem plantou os ipês!” parece passar longe da disposição para tal, sob a alegação de que ao “olharmos as pessoas que estão ou pensam estar por trás das coisas boas que acontecem, a visão se distorce, seja por interesses escusos ou – como no meu caso – repulsa a eles; por incapacidade de separar sujeito e objeto, fato e opinião, indivíduo e obra, ou pela proporcional incompetência em entender que tudo é tudo e nada é nada; ignorância ou preconceito , ao saber quem ou o quê está por trás das coisas”. É curioso que você fez a citação para ilustrar sua interação com a fala do Rubem, bem como para firmar um ponto de vista, dando ao seu leitor a possibilidade de uma compreensão mais “total” do seu próprio pensamento! Tenho a impressão que seu pensamento se trai dentro dessa mesma questão: Se por um lado reconhece as possíveis etiologias para a afirmação que fez, por outro, volta a afirmar, apesar do reconhecimento da falta de capacidade de “separar sujeito e objeto, fato e opinião, indivíduo e obra, ou pela proporcional incompetência em entender que tudo é nada e nada é nada” que “jamais pode interessar quem plantou os ipês! Perceba que belo paradoxo: ao reconhecer a falta de capacidade em desvincular o sujeito do objeto, imediatamente reconhece-se a capacidade oposta – a de vincular o sujeito ao objeto – coisa que foge ao paradigma reducionista. Isso está implícito em seu texto, justamente por conta da maneira como pretendeu abordar o assunto. Ao fugir do paradigma reducionista, você integra o sujeito ao objeto e, nesse sentido, encontramos consonância com Vigotsky, que propôs a superação da dicotomia entre objetividade e subjetividade, uma vez que esta se conforma a partir da incorporação do mundo objetivo pelos sentidos. De certa forma, o que seu pensamento revela é pura e simplesmente a fragilidade de uma questão singular, com a qual concordo plenamente: substituímos todos os nossos agentes motivacionais intrínsecos, por aqueles que são extrínsecos, e isso nos trouxe a uma senda nociva porque esse modo de agir e pensar tornou-se fundamentalista. Mas reagir com fundamentalismo também é nocivo. Se o ipê compreende uma totalidade irredutível, quem o plantou e suas intenções estão ali contidas, representadas na árvore em plena comunhão. Assim, é importante saber quem plantou o ipê (claro que no sentido ampliado, metafórico, agora) para lançar alguma luz sobre a consciência de modo que esta possa ser amplificada e protegida dos revezes ideológicos. E quero que entenda por ideologia “a lógica da ocultação do real”. Me parece que por trás da sua bela frase de efeito “jamais deve interessar quem plantou os ipês” oculta-se o cansaço de quem está esgotado com o sistema, que já não enxerga o óbvio (os valores intrínsecos aos objetos e aos sujeitos) e que deve recuperar essa visão, para não se deixar levar por valores extrínsecos, de ordem puramente ideológica. Todavia, uma visão apenas não basta. Precisamos despertar uma “supervisão”, uma visão ampliada das coisas, caso contrário, iremos combater o que foi legado por uma ideologia usando a mesma artilharia ideológica – a ocultação da realidade. E assim, continuaremos a legar ideologias aparente inócuas, mas nocivas, em verdade, pois continuaremos a suprimir dados importantes de um todo chamado realidade. Ora, o reducionismo fez-se excessivo em nosso mundo justamente por vilipendiar dados de realidade. E essa construção se deu ao longo de tanto tempo, que a mera reintegração das partes e dos saberes não é suficiente. É, sim, como você quer, necessário que as partes computem algo maior do que a soma. E por isso não é possível que se recupere apenas a visão dos elementos intrínsecos de um objeto, simplesmente olhando para ele e percebendo-o em sua natureza (assim: basta olhar o ipê, e saber que ele é belo, logo, bom). Isso não é mais possível, pois nosso pensamento tornou-se “naturalmente” fragmentador, ao longo de tantos e tantos anos. É preciso mais que a visão desses elementos. É preciso uma supervisão, que possa simplesmente reconhecer, mais que incluir, os agentes extrínsecos, ideológicos, na conformação da realidade, de modo a nos tornarmos mais lúcidos sobre a realidade das coisas, sem que isso interfira no julgamento do valor intrínseco desse mesmo objeto. Assim estaremos protegidos das falácias e de boa parte das digressões que rondam constantemente nosso pensamento e nossa fala.
    Se você acredita em uma utopia reconciliadora, que não faça uso de forças impositivas, imperativas, e que tampouco burle as burras leis que o sistema oferece, para modificar a ordem do sistema instituído, é necessário, meu amigo, que nosso discurso seja melhor operacionalizado, justamente para evitarmos reproduzir os mesmos erros que há tanto perturbam a humanidade. Com uma “supervisão”, faz diferença, sim, saber que um político plantou um ipê pra se eleger, e as lições são muitas: políticos que gostam de ipês, talvez sejam humanos um pouco mais humanos; políticos que não gostam de ipês, mas plantam para ganhar a eleição, talvez sejam humanos de ações duvidosas, mas o que não se exclui dessa lógica é o fato de que o ipê permanecerá um ipê, e sendo um ipê, continuará sendo bonito
    repleto das qualidades intrínsecas que apenas um ipê possui. É possível não deixar de ver a beleza naquilo, apesar do que há por trás de toda essa história.
    Mas se eu souber qual é o pano de fundo que orienta a questão (o contexto!!!),tenho a possibilidade de reorientar minhas ações num sentido mais saudável e, realmente, modificador. Mudança ocorre com lucidez, não com ocultamentos.

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