Estória do Passarinho

por Saide Jamal

Esta minha primeira aparição e a última deste ano prestes a terminar não poderia ser diferente num espaço tão nobre como o que me proponho a navegar, gostaria de falar sobre uma das coisas que une as pessoas em vez das que as separa, “o conhecimento, razão ou sabedoria” (como queiram chamar).

“(…) toda e qualquer alma possui conhecimento, possui uma razão seja racional, emocional ou intuitivo/a (…)

Autoria: Traduzido e parafraseado a partir de um conto Popular Africano

Salientar que não pretendo aqui trazer uma discussão conceptual de inteligência, pensamento e ou conhecimento numa visão filosófica ou no campo mais profundo da psicologia para destrinçar estes termos, mas sim elucidar àquele conhecimento e experiências que reivindico como sabedoria de povos que sempre foram considerados à margem na produção do conhecimento contemporâneo e inaptos a embarcar na ciência, o que o professor Albert Modi chamou de “Conhecimento indígena” ou “Indigenous Knowledge”. E por outro lado, me afasto completamente do principio Aristotélico de que “deficientes a ratione naturaliter sunt servi” – “Os que não possuem razão natural podem ser escravizados” e comungo com o Bartolomeu de Las Casas a sua visão sobre a razão e liberdade “os Indígenas naturalites sunt liberi” – “os Indígenas já são livres de natureza”, e por fim apoio os meus argumentos no extrato acima, do conto tradicional Africano de que todos nós temos conhecimento por estarmos ligados a physis (natureza) como principio universal e imutável da verdade e lomos (leis) como variáveis circunstanciais que dependem dos contextos.

Nesta linha de argumentos, trago uma adaptação a partir do famoso conto à volta da fogueira que certamente acompanhou muitos jovens Africanos como eu, nos ritos de iniciação/passagem ou nas simples conversas com os mais “velhos”, refiro-me à:

Estória do Passarinho”

Era uma vez, numa aldeia algures em África habitada pelo povo “X” que tinha na agricultura, caça e criação de pequenos animais o seu meio de subsistência. Este povo vivia em harmonia com a natureza através da sua forte ligação com a terra, ou por outra, eram livres porque estavam ligados à physis e a lomos, reinava paz, tranqüilidade e amor entre os aldeões. As tarefas eram divididas segundo as habilidades individuais e estas não significavam necessariamente a valorização de uns em detrimento dos outros porque eram baseadas na colaboração e coordenação. Como em qualquer estrutura organizacional de indivíduos, tinham como figura de referencia o velho ancião que neste texto irei denominá-lo de Mwalimu Mwaawelani (que quer dizer professor ou formador Mwaawelani), um senhor rico em conhecimento, experiência de vida que até conseguia prever o futuro. Daí mais uma razão de ser considerado uma figura mítica e respeitado por todas as gerações daquele povo.

Ao velho Mwaawelani, era consultado sobre época de chuvas, secas, pragas, colheitas, nascimento de filhos e respectivos nomes a atribuir, casamentos e de mais questões que faziam o dia-a-dia da consciência daquele povo “X”.

Num certo dia, três jovens daquela comunidade que concluíram o seu ensino secundário, e prosseguiriam os estudos lá longe, numa terra bem distante dos seus costumes, do seu ar, da sua massala (fruto silvestre que normalmente os caçadores ou pastores se servem em suas caçadas), neste caso essa terra, chamaria aqui, algures num Pais da “Europa”. Foram se despedir do velho Mwalimu para receber “Bênçãos” e atenderem alguns rituais próprios dos jovens Africanos quando deixam a sua terra para uma longa viajem.

Chegados a Europa, em contacto com outro cânone, outras culturas e clima, este espaço que desafia os seus valores trazidos da África, perante tudo isto um deles disse…

Manos! estamos noutro mundo, de mulheres brancas, num mundo com lógica e de lógicas, aqui tudo faz sentido só quando provado através da ciência, um mundo desenvolvido, um mundo que se opera pela razão e não pela ficção como a do velho Mwalimu o nosso povo está perdido em idolatrar aquele velho caduco.., que de imediato os outros dois jovens Nhafuma e Pahhy corroborando com o Owaani acrescentaram dizendo, quando voltarmos à comunidade, ai sim, vamos desmascarar aquele “velho caduco” provando que ele engana o nosso pobre povo.

Concluíram o curso, e voltaram para a aldeia, na sua chegada era possível ouvir de longe o som dos tambores, dos “elulu” (um som produzido a partir da boca, quando movimentada a língua repetidas e apressadas vezes para os lados – serve para destacar certo acontecimento nos rituais e festas Africanas), as trancas feitas pelas folhas das palmeiras ornamentavam as entradas da aldeia, uma multidão incluindo comunidades vizinhas todas ansiosas em ver chegar e receber os seus “heróis”, alguns olhares de jovens donzelas com sede de desejos platônicos se cruzavam rumo aos recém chegados, os cabritos, galinhas, e gazelas viam o fim das suas vidas para honrar os doutores, reinava uma grande agitação na aldeia X, ainda que a chegada coincidisse com a época de colheita dos produtos agrícolas a festa seria mesmo de “arromba”.

Um mês depois, para pôr em prática o seu plano iniciado no Ocidente com o objetivo de derrubar o velho Mwaawelani, Nhafuma, Owaani e Pahhy decidiram convocar uma banja (Reunião) na qual iriam provar para toda a aldeia que o velho Mwalimu está caduco.

Plano feito à porta fechada

Este consistiria em levar um passarinho vivo, aprisioná-lo entre as palmas da mão de tal modo que nem um raio de sol pudesse penetrar permitindo a sua identificação, depois indagariam ao Mwalimu para que este decifrasse o enigma, se ele acertadamente o fizesse daí partiriam para a segunda pergunta: está vivo ou morto? Das duas uma – disse o Nhafuma – “se ele responder que está morto, eu irei abrir as mãos e o passarinho voa e se responder o contrário, ai aperto as duas palmas e mato o passarinho”, com que os outros circundaram a idéia – dizendo desta ele não se safa … Vamos provar que o conhecimento do “velho” não tem nenhuma base escrita, não tem lógica, e nem se quer ele cita a fonte, e assim não é sustentável…

Chegada a hora do tão esperado exame, a banja estava tão concorrida, talvez mais cheia que no dia da vinda dos doutores, tão cheia de almas com razões racionais, emotivas e intuitivas, todas elas para através do testemunho dos seus olhos e ouvidos validar ou não a tese dos novos doutores (embora muitas almas considerassem uma afronta e blasfêmia ás tradições daquele povo, mas estavam ali reunidas).

De imediato, o Dr. Nhafuma subiu ao único palco que durante décadas sentiu o peso do corpo cansado do velho Mwalimu e de uns poucos que por razões muito óbvias eram convidados a tecer algumas considerações vitais naquele local sagrado, decidia-se ali a vida e os grandes planos do futuro da Comunidade.

O jovem Nhafuma com as duas palmas das mãos casadas como se de ostra escondendo pérola se tratasse e num tom arrogante transportando uma voz com um sotaque quase que estrangeiro, disse: Óh velho! O que tenho em minhas mãos? A multidão virou-se quase que em coro para o Mwalimu Mwaawelani, (que em suas mentes por algum momento passou a idéia de que – ah desta vez o nosso sábio não vai acertar), parecia um jogo de decifrar enigmas sem sentido. Mas o velho Mwalimu sempre com aquele olhar humilde estampado sobre uma testa marcada de franzidos como fruto da voz do tempo e apoiando-se em sua bengala, respondeu carinhosamente na sua modesta voz. .Ah meu querido Neto, eu tenho a certeza que tens um passarinho. Ainda mais arrogante, o Dr. Nhafuma prosseguiu com o seu exame, está vivo ou morto? – (naquelas duas vertentes se responder vivo, eu mato o passarinho e ao contrário abro as mãos e ele voa – assim pensava o Mentor).

A multidão quase que eufórica e angustiada dividida entre sentimentos que se viam fora das suas razões, e as que mordiam as unhas, cruzavam os dedos e de mais sinais de preocupação olhavam bem firme para o palco onde decorria o evento e num dos cantos do palco era possível ver os outros dois doutores (Owaani e Pahhy) que ansiosamente se preparavam para festejar a vitória num tom ávido e validar as suas teses ante um publico incrédulo da modernidade Ocidental, retiravam da sua mochila da marca NIKE, um “cachecol” com escritas em inglês que ao fundo era possível ler “We are the Champions”. Logo o velho sábio retorquiu Ah meus queridos Netos: A vida e ou morte desse passarinho está em suas mãos meu Nhafuma, portanto faça o que achares melhor.  

Os doutores desataram em mar de lágrimas e suplicas de perdão ao “Velho Sábio” e aos Aldeões pela profanação dos valores da comunidade.

E deixo a moral da estória ao vosso critério, á vossa avaliação e espero as opiniões nos comentários deste artigo.

A razão da escolha do nome de Dr. Nhafuma como personagem constitui uma homenagem ao grande amigo Dr. Gregório Nhafuma, que adora este conto a estória do passarinho, e tal como eu, busca nele inspiração sem nunca esquecer as origens. Um forte abraço.

Mwaawelani, Owaani e Pahhy (nomes adaptados em caso de coincidência que possa ferir alguma sensibilidade desde já as minhas sinceras desculpas)

Abrabeijos

Saide Jamal, Coimbra 29 de Dezembro de 2013

 

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