A arte e a educação

por Maisa Antunes

Como professora do componente curricular “Arte-educação”, cada dia que passa, eu tenho me perguntado o que quer dizer este conceito. Quer dizer que a arte pode ou até deve educar, preparar melhor o indivíduo para uma convivência mais educada com ele mesmo e com a sociedade que vive?

Como a arte ou os artistas podem educar, preparar o individuo para uma convivência melhor com a sociedade, se quase todos os artistas estão – muito mais por instinto que pela consciência – indo sempre em direção oposta aos princípios e/ou padrões que a sociedade, que a educação tanto defende? Rousseau lembrou que as melhores instituições são “as que mais bem sabem deteriorar o homem” (p.18). Retira a existência absoluta e dá uma relativa; transporta o eu para uma unidade comum (p.18). Na educação civil, como afirma Rousseau, o homem é educado para o outro homem. Enquanto a arte é a representação mais pura da expressão livre do homem. E esta expressão pura nem sempre é algo pacífico. Nem sempre é algo que colabora para o bem comum e/ou satisfação de toda a sociedade.

O pintor italiano Caravaggio é, talvez, um dos exemplos mais claros de que a arte não influencia positivamente no caráter do artista e, que, para ser artista não é necessário ter bons princípios. Caravaggio era violento e perverso e suas obras são de uma incontestável beleza. Esta beleza pode encantar, mas também pode machucar. Não podemos prever o contato do espectador com uma obra de arte, tampouco podemos prever o contado do próprio artista com sua arte. Olhando com calma as obras de Caravaggio podemos até desconfiar de que o fato dele ter sido alcóolatra e assassino até colaborou para que suas obras fossem mais densas e belas. Sim, podemos perceber em algumas obras deste pintor o próprio temperamento do artista: tenso e perverso. Isto não parece ter influenciado negativamente na qualidade estética, artística de sua obra. Claro que não estou dizendo que todos os artistas têm os impulsos e vícios de Caravaggio, não, não é isto que quero dizer. O que estou tentando chamar a atenção é para algo muito óbvio: Educação não é necessariamente uma aliada da arte, até mesmo porque a arte não pode servir, pacificamente, sem riscos, aos princípios da educação. A educação tenta prever os resultados, a arte, por sua natureza, se vale do imprevisível.

Herbert Read, em “A educação pela arte”, traçando os objetivos da educação analisa: “o homem deve ser educado para tornar o que é, ou para tornar o que não é” (2001, p. 2). Para propor uma “Educação pela arte”, cita filósofos provocadores da perspectiva da liberdade na educação, como: Rousseau, Pestalozzi, Froebel e Montessori. Read afirma que a individualidade “pode constituir um incalculável benefício a toda a humanidade” (p.06). Entretanto diz que “o indivíduo será ‘bom’ na medida em que sua individualidade for percebida dentro do todo orgânico da comunidade” (p.06). Porque, de acordo com o autor, “a singularidade não tem valor prático quando isolada” (p. 06). Sabemos que para que haja uma sociedade sociável é necessário que certos instintos sejam “domesticados” para torná-los mais “sociáveis”. Em arte, o artista e sua obra se valem exatamente do oposto: libertar seus instintos… O que nem sempre é bom para a ética, para o convívio do indivíduo, do artista com a sociedade e até com ele mesmo. Entretanto, a obra de arte, a poesia que nasce nunca é, e nem está isolada; também o artista não está isolado.

Bem, minha pesquisa “Arte versus educação” está só no início, ainda tenho muito que aprender e apreender… Mas estou confiando cada dia mais em minha desconfiança quanto à coerência da disciplina “Arte-educação” (?).

 

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