Prenso, logo existo

por Breno Ruiz 

Lavoisier ficou para trás. Sendo assim, cabe dizer que o tal do “nada se cria” era uma história para lá de óbvia, pois as pessoas realmente perderam a crença e, com a crença, a criatividade. O “nada se perde” é mentira, e mentira tem perna curta. Se fosse verdade, as pessoas não teriam perdido a crença e, com a crença, a criatividade. Além disso, a frase parece mesmo é slogan de programa eleitoral: “Nada se perde – Reciclagem ao alcance de todos”. Contudo, o que deixou Lavoisier para trás foi aquele “tudo se transforma”…

Nesses loucos e modernos dias, “transformar” tornou-se vocábulo arcaico. E como já não há espaço para o velho, o verbo da vez é “formatar”. Assim, nada se transforma, mas tudo se formata e é ave rara aquele que anda na contramão das fôrmas, dos êmbolos e de outros truques mecânicos. Mosca branca é quem escapa da prestidigitação dos computadores e de outras maravilhas da vida moderna. Só mesmo a simpática vaca do Seu Quintana continua a passar “tão lenta e serena e bela e majestosa”, pois de resto, tudo encaixa, enquadra e esquadreja na fôrma que promove a robotização do ser, a catracalização da vida e a burocratização da alma.

Assim, viver é preciso muito mais que navegar. Viver é preciso porque o homem tornou-se uma ferramenta de precisão. É tempo de coisificar o ser! Por isso é preciso ter um padrão. É preciso ter um patrão. Não! Informar não é preciso. Aliás, não é preciso pensar, não é preciso sentir. Preciso é cumprir horário, bater o ponto e passar catraca. Ouvir buzina, tolher o riso e calar matraca… É preciso comer a ração sem sentir o gosto, engolir o choro, pagar o imposto. Preciso, é entrar em forma! E agüentar o patrão, e encarar o padrão, acostumar-se à pressa, render-se à pressão. É preciso perder a expressão. E encerrar o expediente, outra vez, na catraca – do relógio de ponto, do ponto de ônibus, da entrada do banco onde há o quinhão. Pois preciso, é o peso e o preço do pão.

A formatação do homem é pragmática. Só é bom, o que é prático. E escapar do sofisma é pedir para ser deletado. O homem segue seus dias modernos com sangue de máquina e sanha de prensa. E, se a máquina prensa, existe – logo é. Portanto, catracalizar a vida é preciso e descatracalizar não é preciso – é necessário. Pois não tarda o dia em que bebês nascerão com um número de série seguido de um código de barras carimbado em suas poupancinhas rechonchudas. E nesse dia, mães aflitas buscarão cegonhas para encomendar rebentos que se rebentem aos pares, só pelo deleite de revezarem seus pequerruchos no dia do rodízio.

Breno Ruiz é músico e compositor – http://www.myspace.com/brenoruiz

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