A emanar esperança, a construir utopias

por Tiago Miguel Knob*

“Primeiro, onde quer que vivas é provavelmente o Egito. Segundo, que sempre há um lugar melhor, um mundo mais atrativo, uma terra prometida. E, terceiro, que o caminho a essa terra é através do deserto. Não há forma de chegar aí exceto unindo-se e caminhando.” Michael Walzer.

Como um câncer que cresce ferozmente pelos pulmões do homem o impossibilitando de respirar e o levando à morte, a corrupção penetra as entranhas da política entupindo as veias que levam às comunidades as estruturas e os recursos necessários para o seu desenvolvimento, para o desenvolvimento da vida humana e de todas as vidas; calando as vozes, abafando os quereres, num sistema feroz que cria e alimenta as mazelas que, em última instância, matam.

O Egito do início é isso. É a metáfora que representa aqui um sistema político e social marcado, em diferentes esferas e formas, pela corrupção que oprime, produz e reproduz injustiça, sofrimento e mata. O que podemos entender, por exemplo, como o sistema produzido e reproduzido há décadas, e que segue com força, pela política econômica-agrícola-social praticada em São Miguel Arcanjo, a Cidade do Anjo. Um sistema que produz e reproduz a desumanização constante da criança quando não oferece a ela a possibilidade de viver dignamente porque, por um lado, é ingênuo e estúpido e, por outro, necessita dessa criança para a colheita de sua riqueza, de sua uva, de sua batata.

A Terra Prometida é a metáfora, dessa vez, do futuro da libertação, do tempo em que a criança não mais conhecerá o crack; quando as meninas e meninos não venderão seus corpos, nem para a produção da batata, nem para a libido dos senhores sem almas e sem escrúpulos. Quando a mãe não mais chorará a perda de seu filho para as intempéries sociais, consequências políticas, portanto, consequências das ações dos homens; quando o idoso viverá em paz e em segurança sob os cuidados carinhosos da sociedade.

Por fim, o Deserto é a metáfora do caminho de quem constrói o ‘novo’. É o sinuoso e incerto caminhar estratégico dos sujeitos que, submersos em um mundo às avessas em que ao centro, parafraseando o mestre Jaci, não estão a pessoa humana e os povos com suas necessidades e as suas preferências, mas a mercadoria e o mercado aos quais tudo e todos devem estar submissos, se responsabilizam pela transformação eticamente exigida. É o nosso caminhar: duro, exaustivo, cheio de armadilhas… Tende a ser um espaço instável e perigoso, no qual nada ou quase nada é certo ou garantido; existe fora dos esquemas convencionais de sociabilidade, tornando-se, por isso, vulnerável. Também por isso, por sua utilidade vital, são valiosos os laços solidários que se constroem durante o percurso.

O ‘novo’ é o diferente, o não comprometido com o que está. O não compreendido pelos que estão presos à “vida como ela é”; pelos que acreditam, mesmo que inconscientemente, que estamos fadados a conviver com tamanha crueldade.

Frente e submerso em um mundo, em nosso caso, em uma cidade em que não se permite com que suas crianças vivam dignamente, é preciso imaginar uma cidade onde ‘seja possível a criança viver’ e viver bem. Há de se sonhar com a Terra Prometida. Diante das atrocidades e injustiças, uma imaginação transcendental ao sistema aparece como dever ético. Quando se imagina a Terra Prometida, quando se cria a utopia, o ‘novo’, a ‘cidade onde seja possível a criança viver e viver bem’, a esperança surge como motivação diante do futuro imaginado e agora possível. É a utopia possível. Aquela que para Paulo Freire não é a irrealizável, o idealismo, mas sim a dialetização nos atos de denunciar e anunciar. O ato de denunciar a estrutura desumanizante e o ato de anunciar a estrutura humanizadora.

Há de se criar o projeto de cidade futura. Há de se criar as estratégias para se alcançar o dia em que o respeito à vida será maior que o respeito ao lucro e às coisas. Há de se adentrar ao Deserto com a força e a teimosia incansáveis de quem acredita não fazer sentido não enfrentar as crueldades causadoras de tantos sofrimentos. Há de se persistir com uma garra proporcional ao sofrimento de uma mãe cujo filho caiu nas teias das intempéries sociais; há de se lutar com uma graça mais poderosa que o crack; há de se enfrentar com uma beleza surpreendente o que a Cidade do Anjo produz de mais sujo e insuportável: a prostituição infantil. Há de se caminhar com a honestidade tão desconhecida pelos nossos Guardiões do Atraso.

Como nos prepara Jaci, não se trata de uma tarefa simples:

“É difícil realizar o “novo” tão suspirado quando viajamos pelos setores complexos e estruturais com tantos desafios para as comunidades nesta nossa época. Às vezes nos escondemos, noutras nos cansamos. Mas ninguém nasce fora de época. Cada um vem “sob medida” para fazer a história. E a tarefa de viver com amor, lei maior, sempre exige uma graça especial” (mestre Jaci).

E diante de todas as barbáries, injustiças e obstáculos do percurso,

“[…] o mínimo a fazer é mergulhar no rio da história e nadar contra a correnteza. É preciso perseverar no caminho. Hoje temos a necessidade de personalidades fortes e honestas, em cada campo da vida social, econômica e política com o jeito ousado e determinado do Bom Samaritano, aquele que seguiu pelo caminho do não obrigatório” (mestre Jaci).

Havemos de enfrentar o Deserto, emanar esperança, construir utopias, persistir e caminhar até a Terra Prometida, onde emana leite e mel.

Um fraterno abraço, Tiago Mi.


* Inspirado principalmente em Enrique Dussel, Jaci Rocha Gonçalves, Paulo Freire e Boaventura de Sousa Santos, parafraseando-os em alguns momentos.


 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s